Opinion Sur Joven

Nº46

Um mundo ideal

Fevereiro de 2007, por Pablo Winokur

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17 garotos, 14 culturas diferentes, um mesmo objetivo: melhorar pelo menos alguma coisa dos lugares onde eles moram. Historias de vida de um grupo de jovens do mundo inteiro que escolheram tentar uma mudança

Existe um mundo melhor? É possível pensar nisso? Não sei. Embora no pessoal eu acho que este mundo se constrói: devagar tijolo por tijolo. Durante o mês de novembro viajei aos Estados Unidos, mais precisamente a Washington em representação de esta revista digital que você está lendo, lá convivi durante sete dias com 17 garotas e garotos que tem entre 20 e 26 anos que escolheram aportar o seu grão de areia para mudar este mundo esquisito no qual gente mora. E ao contrario de ficar batendo papo do assunto num boteco, escolheram a ação. Diferentes culturas, experiências de vida, vivências e visões; mas muitas coisas em comum, a idéia de que para melhorar as coisas é necessário se comprometer.

Dániel Nduati é de Quênia, um país africano que tem um pouco mais de 34.000.000 de habitantes. A sua capital - Nairóbi-tinha até o ano passado 538.000 habitantes, dos quais 60.000 - 10% da população – são crianças de rua. O Dániel –perceba a acentuação no A- é negro. Muito negro. O seu corpo e a sua alma são negros. As suas maravilhosas camisas eram pretas, a música que fazia com o seu corpo, o jeito de jogar futebol... O Dániel morou durante muito tempo na rua até que por algum motivo – “Deus”, segundo ele, conseguiu sair. A partir disso começou o seu trabalho comunitário. O Dániel fundou no ano 2000 o “Emmanuel Boyz Rescue Center”, um centro que oferece lar, alimentação, educação e saúde a 40 garotos de rua. O Dániel –hoje com 26 anos-atende pessoalmente as crianças, e além do mais oferece carinho. Com forte convicção religiosa, agora o Dániel diz que gostaria de ser presidente do seu país. Vai conseguir? Quem sabe?

Antes desta viagem, para mim a Somália era somente um país conhecido através de piadas de negros. O pais mais pobre do mundo, não significava para mim outra coisa que isso. Depois da viagem, percebi que se tratava de um “não-país”. Parece que nos começos do século XX a Somália estava dividido em quatro, cada parte sob o controle das potencias da Franca, da Itália, e da Inglaterra, que tinha duas regiões. Tinha uma quinta região dominada pela Etiópia. Nos anos ‘60 a Somália atinge a independência, mas submerso numa importante quantidade de guerras internas, o qual determinou que o seu presidente fosse assassinado no ano de 1969. Esse ano, um golpe militar fez com que subisse ao poder Mohamed Siad Barre. Este homem foi um típico chefe militar árabe-africano dos anos ‘70: aliou-se com os soviéticos, disse que ia impor um regime comunista, mas terminou impondo uma ditadura que durou até os anos ‘90. No meio deixou uma terrível guerra com a Etiópia. Quando Siad Barre foi derrubado, a Somália entrou numa guerra civil entre os diferentes bandos que convivem na sua sociedade. Toda esta introdução para falar do Abdinasir Nur. Um homem esquisito de este país esquisito. Abdinasir vestia a toda hora terno e gravata, embora ele tenha 24 anos. A formalidade de seu país assim o exigia. “Em meu país não há governo e não há paz – diz – e eu gosto da paz e da democracia”. O Abdinasir fundou uma organização para promover justamente esses dois valores. “Muitos somalis acham que a democracia é um sistema cruel que vem desde o Ocidente. Eu tento mostrar que é possível ter democracia preservando a nossa cultura”, explicava. Tal vez algum dia Abdinasir chegue a ser presidente do seu país. Pelo menos essa é sua vontade. Mais uma vez: ele vai conseguir?

OAlexi Buzu é de um país cuja existência eu desconhecia. Eu sempre fico chateado quando falo com estrangeiros que não sabem que é a Argentina ou que acham que nós somos uma província do Brasil. Eu sabia que isso ia acontecer durante a viagem, portanto eu tive muita paciência para responder perguntas tolas. Com o Alexi os papeis se trocaram “De onde você é?”, perguntei com o meu estilo de Tarzán do terceiro mundo. “De Moldova”, respondeu. Silêncio. Um segundo, dois, três… Eu tinha que perguntar onde ficava isso. Quatro, cinco, seis... Lembrei da raiva que eu sentia quando perguntavam para mim onde fica a Argentina. “Ah”, eu fale acenando afirmativamente com a cabeça, como se eu mesmo fosse moldavo. Aos dois ou três dias de conviver com ele pude aprender mais um pouco desse país que tem limite com a Romênia e a Ucrânia. Como toda a zona do leste da Europa, lá não é muito simples determinar que é uma nação e que não. Foram partes da União Soviética, até o ano de 1991 ,momento em que o império russo chegou ao fim. Depois, no ano de 1994, alguns tentaram se anexar à Romênia, país com quem compartilham idioma e muitos costumes. Ganhou o NÃO e por isso até hoje são independentes. 20 linhas para contar ao respeito de um país cuja existência eu desconhecia; 20 linhas para falar do Alexi. Auto-definido como “looser”, tem 24 anos e aos 19 foi vereador municipal. Repito: aos 19 anos. “Eu achava que não ia ganhar, não tinha nada melhor que fazer, portanto me apresentei”, me disse com ironia. Nunca se sabia se o Alexi falava serio ou era brincadeira. Acho que em definitiva não importava. Ele e um grupo de amigos fizeram arranjos na praça central da comunidade, e ele dizia que esse ponto tinha sido importante. O dia das eleições, uns amigos o chamaram por volta das seis da tarde. “ Você ganhou, vai ser vereador municipal”, disseram-lhe. O Alexi passou pelo mundo da política e decidiu abandoná-lo. Talvez, seja demasiado protocolo para uma pessoa como ele. Por causa disso, retomou o trabalho na sua organização chamada Gerónimo, que tenta que os jovens se comprometam com a comunidade de alguma forma. O último projeto foi o arranjo do jardim da infância, já que sua comunidade precisava dele.

Eu gosto do sotaque do Caribe. Gosto especialmente de que exista alguém no mundo – além dos argentinos – que utilize o “vos” como segunda pessoa do singular. Justin e Ana Luisa não são caribenhos, são gringos ou ianques (qualificativo variável, segundo o país de procedência do leitor deste artigo). Mas falam absolutamente como caribenhos. Parece que o país deles são melhores amigos, e por acaso a vida os ligou na Honduras (“Janduras”, como pronunciavam em inglês) onde ambas famílias tiveram que fazer uns trabalhos. A mãe do Justin é boliviana (nos convidou a comer una comida de seu país, que sem duvida foi muito melhor do que eu comia quando viajei ao altiplano; nada de “sopa y segundo”). Na casa dela ela mostrou para nós que apareceu na revista Times como uma das mulheres mais importantes dos Estados Unidos, justamente pelo seu trabalho social. Os pais do Justin e da Ana Luisa coincidiram na Honduras onde instalaram-se com toda a sua família- e depois voltaram para Washington DC. Ninguém sabe o porque, mas o Justin e a Ana Luisa –agora de 25 anos- decidiram voltar para a Honduras (Janduras) e tentar deixar alguma coisa nesse pais no qual 33% das crianças vivem em estado de desnutrição, a metade da população é pobre e um terço não sabe nem ler nem escrever. Segundo essas estatísticas eles decidiram criar uma organização que se chama de OYE Honduras (Ouça Honduras)… Organization for Youth Empowerment; engenhoso. Eles estão (ou estavam) instalados em El Progreso, una cidade hondurenha muito pobre. A idéia é poder ajudar a dar educação as crianças que menos tem. Oferecem bolsas e também lhes ajudam com a hospedagem, comida etc. Eles também têm programas de saúde, de educação para a arte (Ana Luisa estudou historia da arte) e fazem atividades recreativas para crianças. Nosso encontro também significava para a Ana Luisa o final da sua vida na Honduras. “Não é fácil para una mulher gringa viver lá”, disse-me. A sua idéia era continuar trabalhando para OYE Honduras, mas “desde este lugar”; isto é, desde lá… desde Washington.

Cada historia tem uma historia e desobedecer as regras de esta revista (no que se refere a extensão das paginas) não seria apropriado. Por tanto eu vou usar os últimos parágrafos deste relato para contar o que se refere aos projetos. Ninguém acredita que os estereótipos possam ser tão estereotipados. Embora às vezes as caricaturas não são suficientes no momento de caricaturizar às pessoas. Eu nunca terminei de entender se “Cindy” era um nome artístico ou era o real (outros documentos a mencionavam como Di) mas ao fim deste artigo a chamaremos de Cindy e Holly. As duas são da China. Falando de estereótipos, quando eu as conheci me cumprimentaram com a clássica reverência chinesa, mas o que foi mais engraçado foi tentar que elas falassem o castelhano: começamos com as palavras “Andrea e María” ou – melhor dito elas dizendo – “Andlea e Malia”; obviamente as minhas aulas não deram resultado. Parece que na sociedade chinesa não é muito comum o trabalho voluntário. Elas estão procurando promover esse tipo de trabalho, desde a Universidade onde elas estudam que fica numa província, isto é longe de Pequim. No ultimo lugar eu queria mencionar a o Vikram. Homem da Índia, calado, falava quase em silêncio, se é que isso for possível. O importante do Vikram não eram tanto as suas características pessoais, senão o projeto que levava a cabo. O Vikram foi viciado em drogas durante una parte importante da sua vida. Por alguma causa deixo de fazê-lo e decidiu fundar um centro de reabilitação. O interessante é que os coordenadores de este centro eram todas pessoas que foram (Foram?) viciadas. “É a única maneira de que os coordenadores e líderes compreendam os problemas dos garotos dependentes que estão tentando se reabilitar ”, opinava o Vikram. A idéia do centro é tratar o problema da dependência desde uma perspectiva integradora com uma forte política de redução de danos e não os punindo ou tratando-os como doentes, como geralmente trata-se o assunto. Foram? O problema que tinha o Vikram, nós já falamos disso tentando encontrar uma solução, é que muitos desses coordenadores somente pelo fato de estar com pessoas viciadas voltavam a cair na armadilha. Desse jeito, a idéia de ex-viciados que ajudam a atuais viciados entrava em crise. Isso torna invalida a idéia? Eu acho que não. Uma idéia brilhante que somente necessita se desenvolver, e melhores mecanismos para que funcione melhor ainda.

Pode-se construir esse mundo ideal do qual eu falava no começo? As utopias são utopias, são “não lugares”. Mesmo assim, sim, é possível atingir elas. Mas para isso precisamos de pessoas que deixem o lugar de passividade e se animem a enfrentar os problemas, pensando-os não desde o ponto de vista egoísta, senão tentando de apontar ao bem comum. Pelo menos este é o exemplo que me deixam o Dániel, o Abdinasir, o Alexi,o Justin, a Ana, a Cindy, a Holly, o Vikram e os outros garotos com os quais compartilhei aquela viagem. Um exemplo, que vale a pena seguir.

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