Abril de 2009, por Daniel Galvalizi
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Batatas fritas: uma das maiores iguarias com as que as mães- ou restaurantes de comidas rápidas- enchem o papo das crianças. Para fazer batatas fritas é imprescindível uma boa quantidade de oleo. Em todos os restaurantes do mundo, grandes ou pequenos, necessitam também essa substancia. Pode ser imaginado um cardápio sem o uso de nenhum óleo?
Não, e isso é parte do problema. O óleo de cozinha (hoje vamos falar dele e deixamos os óleos de indústrias ou combustíveis para um próximo artigo) é um dos grandes- e graves fatores da poluição da água. E como é tão usado na pequena ou gigante cozinha do mundo, a atenção a esse problema torna-se relevante, especialmente se levarmos em conta que o consumo mundial de óleos vegetais em 2008 ultrapassou os 120 milhões de toneladas, com o óleo de palma e soja no topo.
Vamos falar da mistura de meio ambiente, arte culinária e logística de lixos. Uma mistura bastante peculiar, desafiante e pouco conhecida.
As donas de casa mais rudimentares e os cozinheiros mais prestigiosos concordam em algo: a maioria deles sabe que jogar o óleo na pia da cozinha não é “politicamente correto”, embora muitas vezes não sabem o por que.
“O óleo jogado na água polui a água e a fauna, porque fica flutuando na superfície e não permite a oxigenação, nem que entre luz”, explica a Opinião Sul Jovem o engenheiro Nicolás Apro, diretor da divisão Cereais e Oleaginosas do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (INTI). Ao ficar a luz tapada afeta a biodiversidade nos ecossistemas de rios e lagoas.
Apesar de algumas opiniões mais alarmistas que se podem encontrar na web, onde se denuncia que um litro de oleo pode poluir um milhão de litros de água [1], Apro diz que “um litro de óleo polui centos de litros de água” pelo menos. Os óleos usados pelas industrias e em grande escala pelos restaurantes e bares geralmente são jogados num recipiente e são entregues a uma empresa fornecedora, onde se supõe que o reciclam num novo óleo para uso não humano. Nos casos de uso domiciliar, o liquido geralmente termina nos esgotos da casa ou apartamento, o que significa que vai poluir rios e lagoas onde desemboque. “Isso termina estragando os encanamentos e algumas pessoas o jogam ao vaso sanitário, o que além disso representa uma interferência grave no processo de purificação posterior da água”, fala.
Em alguns casos, tanto em domicílios particulares como restaurantes, os consumidores acham que a solução é jogar o óleo em recipientes fechados dentro ou fora da lixeira, e depois se desfazer deles. “Depois, quando o recipiente se aperta no caminhão do lixo gera um desastre. E outra solução seria incinerá-lo, o que representa um passivo ambiental grande por seu grande custo”, adverte Apro.
Então a gente não pode fazer nada? Na realidade não. O ideal seria entrar em contato com alguma empresa de reciclagem. Mas senão, sempre é melhor continuar jogando ele no lixo, onde, além disso, você não estraga o encanamento. Mas por enquanto nenhuma solução é ótima.
Diante deste panorama o Instituto Nacional de Tecnologia Industrial laçou um programa que procura gerar consciência na população e ao mesmo tempo aliviar a poluição que provoca esse costume ruim.
O projeto consiste em organizar uma rede com hotéis e restaurantes para que armazenem o óleo que se quer jogar. Desse local seria apanhado por uma empresa que o reciclará para um futuro uso não humano.
Um dos destinos mais interessantes desse reciclagem é a transformação a biodiesel: obter desse óleo vegetal usado um combustível que substitua a outras gasolinas baseadas em petróleo. O Instituto está trabalhando para isso com a empresa Epor, que por enquanto é a única que tem uma fabrica aprovada e certificada para fazer biodiesel a partir desse material. “É muito importante porque existe um mercado ilegal de companhias que colheitam o óleo e não o usam senão que o jogam em qualquer lugar, porque é melhor negocio”, diz Apro. Esse projeto já se está levando a cabo nas cidades de Miramar, Mar del Plata e Bariloche.
No que se refere aos lares, o Instituto de Tecnologia Industrial está procurando trabalhar com os vizinhos, para que em lugar de jogar o óleo na pia da cozinha, complicando o efluente e o futuro tratamento dessa água, o óleo possa ser armazenado no bairro. “A idéia é que a criança leve o recipiente com óleo à escola e que nela se reúna em quantidade. Desse jeito se incentiva também o cuidado do meio ambiente entre os jovens”, diz Apro. A escola chamaria ao recolhedor que lhe pagará pelo material. O programa está sendo desenvuelto no Municipio de La Matanza, na provincia de Buenos Aires.
A vantagem do reciclado em biodisel é dobro: além de evitar a poluição da água, se produz biocombustivel, que como já falamos antes não emite gases de efeito estufa na combustão, a diferencia dos mais daninhos combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão).
Um agente chave neste processo, pelo manejo de cifras enormes de óleo de cozinha, é o cozinheiro. Imaginemos se todos os chefes das cozinhas do mundo estivessem coordenados de forma tal de contribuir a uma rede de reciclagem de óleo em biodiesel. Seria outro cantar ( e outra poluição) .Opinião Sul Jovem foi consultar a um representante do grêmio: a chef Belen Guglielmo. Ela tem 27 anos e trabalhou num restaurante de um hotel de primeiro nível e atualmente oferece seus serviços para duas empresas de catering.
Belén fala que o óleo que se usa nas cozinhas normalmente é jogado em vidros ou sacolas cheias de papeis para que o óleo seja absorvido, o que indefetivelmente não termina num processo de reciclagem. Como boa representante da Geração X, Belén diz ser ciente da poluição que produz o óleo na água, embora não sabe “exatamente como”. Conta que é ela a que na maioria das vezes insiste em ter cuidado com esses temas nas cozinhas nas que trabalha. “Há alguns chef que não se importam nada com o assunto e normalmente não é um tema que se comente no grêmio”, relata.
Enquanto se fala sobre a possibilidade de reciclagem do óleo para evitar afetar ao meio ambiente, nossa chef entrevistada mostra-se predisposta. “Obviamente se eu o pudesse fazer o faria, principalmente, sabendo que isso cuida o meio, porque me preocupa muito o mundo que vou deixar a meus filhos. Mas somente percebo a consciência nesse tipo de coisas quando há chefs mais preparados. Acho que o descuido que existe é por desconhecimento, seria necessária mais informação sobre o assunto ”, opina e pede nesses temas um papel mais ativo por partes das Escolas de Cozinha”, comenta.
Belén cutucou na ferida: a instrução e as empresa. O outro vértice do triangulo o vimos com o INTI e seus programas estatais. Três patas de uma mesma mesa, que voltam a demonstrar que têm que agir juntas se o objetivo for melhorar a qualidade de vida. E é possível consegui-lo da cozinha. Gostou do artigo? Assine fazendo clique
[1] Isso é mais próximo aos líquidos usados em processos industriais, mas no óleo de cozinha o impacto é menor
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