Junho de 2009, por Roberto Sansón Mizrahi
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Mostraram-lhes montanhas virtuais e lhes disseram que encima havia cumes. E como a molecada quis experimentar, deram para eles alturas em cápsulas. “Quer ficar numa boa? Eis um pouco de falsidade instantânea.” “Você quer fazer parte da manada? Com isto, fique à vontade para se incorporar.” “Precisa de mais hoje, amanhã, nos finais de semana? Toma, aspira, traga.” “Você descobriu seu novo corpo, que já não é de criança, e não sabe como usá-lo? Dispa-se, mostre-se e vamos ao rodeio, que lá você não tem que pedir permissão a ninguém.” Não se requer autorização para perambular pela campina, apenas poses, estender a mão e aspirar de forma compulsiva ser rapidamente feliz. Para que fazer esforço? Qual foi o imbecil que resolveu beatificar o esforço? Se tudo se acomoda com umas tragadas, uns goles e ao abraçarmos os amigos que acreditamos ser de ferro, porque dizem que nos acompanharão em tudo, em todas e para sempre. Desconhecem as dissimulações da rua, os esquecimentos dos grupos, a indiferença da manada, o manusear dos titeriteiros.
Estão rodeados de imediatismo e facilidades. Por que postergar um prazer se temos hedonismo em abundância, empacotado em sacolinhas? Agora é ordem. Como o café instantâneo, como a comunicação instantânea, como a relação instantânea, como a nudez instantânea. Você desobedece com gosto, se sente mais adulto que os adultos estúpidos e passa a noite esperando o amanhecer enquanto os idiotas dormem. Depois volta arrastando os pés para a casa, pernoitado, acreditando ser feliz ainda que, apesar de tudo que você ingeriu e tragou, algo lá dentro vai te dizendo que ainda não é suficiente, que você é todo poroso, que terá que recarregar, porque perdeu em minutos o que você levou horas para tomar. E de onde vêm essas cócegas de insatisfação que te acompanham por todos os lados se você está se divertindo como louco? (ou não é assim?), se você se enroscou com um qualquer (não era o que você queria?), se você ingeriu risco e com isso seu coraçãozinho se sentiu menos amassado por umas horas (não incomodem com dor na alma).
Quis entender e perguntei [1] . Disseram-me que apenas na manada e com os suplementos é possível aplacar a solidão, a apatia, os vazios. O resto assiste da platéia, mas não sentem. É que são sacudidas fortes que alugam e não há perspectiva de outro rumo, nem da futilidade deste. Vale mais amordaçar o desconcerto e tomar emprestada a gargalhada dos demais, porque se eu choro ou não entendo sou um pivete que ninguém leva a sério.
Você sabe que as coisas que podem te fazer mal, estão em suas mãos (nas suas palavras) e que ninguém pode te impedir, porque os pais nem se dão conta. Caso tomassem conhecimento, pronto, tchau; mas tardam em cair em si e, quando se enfurecem, já está instalada a nova cultura e os argumentos para defendê-la e justificá-la. O fogo de hoje queima mais.
Os titeriteiros dançam como se estivessem coordenados, lucram com o engano e murcham a molecada. Atiram pedras e escondem a mão. Alguns conseguem. São os chefes da droga e seus cúmplices protetores, são os disseminadores culturais do despropósito, do vazio, da mensagem enganosa de algumas publicidades, são aqueles que pelos meios de comunicação instalam a “normalidade” paralisante, o desapego e os cantos de sereias que raptam o imaginário juvenil e consagram a transgressão e alienação. O trabalho sujo é feito pelos traficantes dos bairros, pelas discotecas que disponibilizam o cenário perfeito, pelos quiosques de cada esquina que camuflam o álcool e vendem o proibido para os menores de idade. Também o fazem os pais que perdoam, que não acompanham, que não estão ou estão atordoados.
O repórter escreve: http://www.lanacion.com.ar/nota.asp... “Faz quarto ou cinco anos que a pasta base, antes um mero resto químico da cocaína, se transformou em uma mercadoria de primeira ordem e se massificou nas zonas marginais. (...) Nos seus consumidores, o primeiro efeito é a euforia e, logo, a fissura, não tarda nada em transformá-los em viciados. Rapidamente entram em uma fase de alucinações, paranóias e agressividade selvagem. São conhecidos como os mortos vivos. São como vampiros de um elixir que se mistura com lascas de metal e cinzas, que se arma com latas furadas e que conduz à morte cerebral em seis meses. A latinha os deixa erráticos e violentos, e o desespero para conseguir dinheiro, os transforma em assassinos vorazes” El párroco de la calle de la muerte. Encerra seu artigo imaginando o pároco da rua da morte caminhando pelas calçadas de seu labirinto e conclui de forma simples, com o coração apertado: ”que padre teimoso, não sabe se render”.
Quando carreguei tudo o que podia carregar na minha angústia, pensei; pensei como podemos sair deste pântano (porque se ficamos aí nos afundamos cada vez mais), como dar a mão a esta maravilhosa juventude que se tornou vítima. Não é possível abandoná-los, não tenho estômago para isso. Virei a cara até quando pude. Hoje as risadas das marionetes me inundam de tristeza e o sarcasmo dos titeriteiros me transtorna. Molecada que quer se convencer que está a toda, impossível que imaginem as lágrimas do beco sem saída. Canalhas que lucram com a esperança.
Pensei em planos e ações sistêmicas, porque essa é a maneira que penso e entendo, e estou certo de que existem essas saídas. Depois olhei minhas mãos e me perguntei o que elas fizeram. Reconheci as mães que lutam nos bairros por seus filhos ou, quando os perderam, pelos filhos dos demais; padres, pastores, rabinos de vilas e bairros, movimentos sociais, organizações de apoio, policiais honestos - e não os outros, fiscais, juízes e funcionários de verdade - não aqueles, todas as lágrimas secas. Temos muito mais a fazer. Pais, amigos, outros parentes.
É no dia-a-dia que devemos nos abrir ainda mais para os jovens. Escutar para compreender e não predicar, aprender com eles para saber ajudar. Sempre dói admitir que eu também tenho que mudar, e não apenas a molecada; que não posso mais me direcionar a eles como detentor da verdade, mas sim em uma posição de busca conjunta, com seus códigos e imaginários. Aceitar que cada um procura construir sua própria identidade, buscar e erguer-se por si mesmo.
Será que a própria molecada poderá ajudar a encarar sua limpeza? Saberá reconstruir seus grupos, afastar a carniça, reconhecer-se na penumbra? Simplesmente esperar, não é suficiente. Poderão aceitar a ajuda daqueles que se relacionam com eles, não se afundar nas áreas de maior risco; proteger-se dos titeriteiros sempre pobres de compaixão; ressurgir jovem e não mais marionete?
Como compartir isso com os meninos e meninas do bairro, com as vítimas da nossa aldeia global? Como recebê-los e ser recebido? Como abraçar-nos bem forte? Tomara que possamos – como aquele antes mencionado - ser tão teimosos quanto se faça necessário e que não saibamos nos render.
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[1] Muito obrigado pelos enriquecedores comentarios oferecidos por Marina Stern
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