Opinion Sur Joven

Nº46

Na procura de Deus na era da Internet.

Abril de 2009, por Rab. Guido Cohen

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Acredita em Deus? Pergunta difícil de responder em plena posmodernidade. Algumas pessoas têm a certeza absoluta de sua existência ou de sua inexistência, outros não se animam a se definir. É útil acreditar em Deus ou ele foi um invento do homem antigo para explicar coisas que não podia justificar? Que função tem Deus no XXI? Para responder essas perguntas, um jovem rabino de 28 anos esboça alguns conceitos. Obviamente, ele acredita em Deus. Mas seu texto serve para abrir o debate.

A pergunta do editor da revista me deixou refletindo alguns instantes. “ Há lugar para Deus na era da Internet?”. Minha primeira tentativa de resposta foi a partir da lógica da fé. Aqueles que acreditamos, acreditamos que, como diz o profeta Isaías, “o mundo esta cheio de Sua gloria”. Isto é, se ele está em toda parte, como não vai ter lugar para ELE? Do ponto de vista tradicional da fé monoteísta, Deus (que é infinito em tempo e espacio) perguntou ao começo se ficava algum lugar para o mundo. Esse é um paradoxo chave na mística judaica. Se Deus ocupasse tudo (por ser infinito e porque a Sua Gloria lota o mundo), então não teria lugar para mais nada. Os místicos antigos responderam que Deus ao criar o mundo teve que se contrair, porque senão, não ficava lugar para nada que não fosse Ele, qualquer lugar ficaria pequeno. Caso contrario, se houvesse um lugar o suficientemente colossal como para conter a Deus, portanto Deus já não seria Deus, porque a sua natureza é não poder ser contido nem limitado.

Mas além de todas estas disquisições filosóficas fora de moda, eu tive uma idéia melhor para saber se ainda há lugar para Deus na era da Internet, era perguntar precisamente na web. Conferir se na Rede de Redes tinha espaço para o “Rei de Reis”, como é chamado nas fontes judeus e cristãs. Google, esse ser difícil de definir, mas que tudo o vê e tudo registra, tem 531 milhões de sites nos que Deus pode ser encontrado, se procurássemos pelo seu nome em inglês. Se procurássemos pelo apelido regional, aparece 72 milhões de vezes, sempre omitindo resultados semelhantes ou repetidos.

A pergunta, portanto já não é se existe um local para Deus, mas onde podemos encontrá-lo. E como homem postmoderno que eu sou, não foi necessária nem bússola nem cartas de navegação para saber por onde começar. Google Earth, Google Maps ou um dispositivo GPS de qualquer telefone celular, daqueles que você pode comprar em prestações, me ajudaria a procurá-lo. Mas para minha surpresa, deparei com uma mensagem que dizia “ não foram encontrados resultados para:”. Isto é, além de minhas hipóteses confirmadas pelo Google, de que tinha um lugar para Deus na era da Internet, ninguém podia me ajudar a encontrar esse lugar.

O assunto não é novo. Ao longo da historia muitas pessoas procuraram a Deus, mas poucos (talvez ninguém) encontrou ele. Albert Einstein dizia que “Deus não joga dados com o universo”. E embora não tenha certeza de que seja certo, me animaria a dizer que sim brinca com nós de esconde-esconde. Essa talvez seja uma das imagens mais claras que eu tenho do divino. Deus como alguém que brinca de esconde-esconde, para despertar nosso desejo de encontrá-lo e mobilizar nosso sentido de busca. Uma famosa sentença rabínica afirma que “não há lugar desprovido de Sua presencia”, e, porém, eu estou afirmando que nesses tempos, como em todos, é difícil percebé-lo.

Esta dicotomia em relação ao divino é parte da dúvida que domina a vida de qualquer homem de fé. Aquele que acha que a fé se trata de certezas, em realidade possui uma fé fraca demais. As certezas, como tais, são refutáveis. Em algum momento da historia era uma certeza que o mundo era plano e estava sustentado por tartarugas. Em alguma etapa da ciencia a certeza era que todo dava voltas ao redor do sol e quem afirmasse o contrario, correria o risco de que sua cabeça rodasse como um planeta mais da via Láctea. Porém, as certezas sempre foram verificáveis e, portanto questionáveis. A fé é uma experiência do domínio da dúvida, da procura eterna de aquilo que nunca finalmente compreendemos, porque é precisamente essa a Sua natureza.

Acreditar é essencialmente duvidar .

Acreditar é se entregar a uma experiência na qual ficamos enfrentados continuamente a algo do que o homem moderno tentou se privar: o mistério. O mistério, longe de ser uma fraqueza como conseqüência de nossa imperfeição, é uma sensação sublime que nos permite compreender ainda mais sobre nossa humanidade. Perceber o mistério faz com que saibamos que somos incompletos; ser testemunhas de que existe um Ser ao qual não vemos, mas somente percebemos a partir de suas obras, de sua palavra e de sua criação. E dessa forma, disciplina nosso ego e permite que possamos ser mais cientes de nossa humanidade.

Numa época em que com um clique podemos ter acesso a quase tudo; numa dinâmica em que o saber pode ser atingido por qualquer “usuário” e não há lugar do mundo que não possa ser navegado com a ajuda do mouse, a fé lembra permanentemente que existe uma impossibilidade de compreender tudo. Embora possamos caminhar as ruas de qualquer parte do mundo (inclusive aqueles que não poderíamos caminhar se não fosse virtualmente), existem lugares que não podem ser percorridos nem sequer com o mais moderno dos GPS.

E mais ainda. A era da Internet ameaça a humanidade com o perigo de isolamento: num mundo em que todos estamos “ligados”, é mais difícil que nossos vínculos desapareçam. Os relacionamentos se reduzem a contatos e as amizades a pequenos retângulos ao lado do site Facebook ou Orkut. Até seria capaz de dizer que logo vamos a estar em condições de enunciar um novo teorema moderno (uma espécie de Pitágoras da era do Google), que afirmará que a relação entre a quantidade de ‘friends’ no Facebook ou Orkut e a de amizades na vida real é inversamente proporcional.

Os profetas bíblicos imaginavam os tempos de redenção como aqueles em os que “toda pessoa viverá sob a parreira e a figueira ”. Os tempos que vivemos nos encontram, pelo contrario, diante da tela do computador portátil, a cada dia ainda menor e com melhor definição . É precisamente nesse contexto, que a fe se revela como uma ferramenta de valor excepcional na hora de preservar os relacionamentos entre os humanos não mediadas pela tecnologia. As experiências religiosas que se derivam da fé, são na maioria comunitárias e de contato real, não virtual. A fé, portanto, tem como conseqüência a necessidade de uma vida comunitária que, por enquanto, não pode ser substituída por a on-line. E mesmo quando isso acontecer, mesmo quando em algum momento apareçam as web-missas ou as meditações virtuais, sempre o homem de fé terá ter uma vantagem diante o isolamento da vida no mundo Google: aquele que acredita em Deus, nunca está sozinho.

Desenho: Bárbara Dana

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