O Sul também existe.
Dezembro de 2008, por Leila Mucarsel
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Embora os primeiros exemplares de nossa espécie tenham nascido no continente africano, ela é a região mais pobre e esquecida do planeta. Junto com a America Latina, são as mais ricas em recursos naturais e durante séculos possibilitaram o crescimento e o desenvolvimento da Europa. Porém, grande parte das populações vivem na pobreza, outra linha também imaginaria mas muito mais real do que o Equador. A linha da pobreza (e indigência) é medida com frios indicadores numéricos mas ela é sofrida com a pele, com o corpo, com os ossos. A pobreza, é o maior flagelo que sofre a humanidade, mas não é percebida no dia a dia, manipulada nos discursos políticos e, apesar de tudo, nunca resolvida. Enquanto isso, do outro lado do Equador, cai um fantasma que ninguém conhece, mas que milhares adoram : “Wall Street”. Wall o qué? Wall Street, crise financeira, queda das bolsas… Tudo mundo fala disso. Ninguém do importante.
Quando era criança participava dos Modelos de Nações Unidas, simulacros da ONU onde centos de jovens colocam-se no lugar de lideres mundiais. Neles, uma estratégia bastante comum nos discursos dos “delegados” na busca de obter a atenção da “comunidade internacional” era uma trágica contagem: “Um, dois, três.... morreu uma criança na África”. Os que estavam meio dormidos abriam os olhos, não tinham mais sono, mas uns segundos depois tudo voltava à normalidade. Mais discursos, mais palavras.. Algo semelhante acontece na realidade. Mas afortunadamente, além de uma enorme riqueza natural, existem no sul do globo (também no Norte) cada dia mais pessoas que são contrarias a esta desigualdade perversa. Pessoas que rejeitam um sistema que não se para a pensar nem um instante na sua sustentabilidade ecológica e menos ainda no seu “custo humano”.
Sonia, de Guatemala, representa a Rede Nacional de Organizações de jovens Maias e sabe direito o que significa “ser do sul”. Seus ancestrais, os habitantes originários destas terras, sofreram a persecução e o extermínio por parte dos colonos espanhóis. Tomara o “azar” tivesse terminado nesse momento: nos inícios do século t XXI as comunidades maias sofrem grandes iniqüidades e os seus direitos não são respeitados. Mas o otimismo da Sonia e o seu povo se percebe de longe, percebe-se nas roupas coloridas.
Quando eu pergunto pela forma de organização do seu povo, fico surpreso pelo grande respeito que eles têm pelos idosos. Possuem uma instituição chamada de “cofradía”: uma espécie de conselho de idosos que são mediadores com o governo oficial. Organizam as principais festas e principalmente aconselham a comunidade. Conta para mim a importância que tem para eles a sua linguagem. A cultura é transmitida através do idioma e por isso foi uma grande conquista que em 1996 se reconocesse o direito das crianças a receber educação bilíngüe.
Outra surpresa é ouvir a sua conceição do ambiente: “Ensinaram a respeitar tudo o que está por perto. Derrubar uma arvore não é só isso, a arvore tem vida, oferece para nos frutos, oferece sombra. Tudo é importante ”. Obvio né?, mas teríamos evitado muitos problemas se os pioneiros do progresso tivessem entendido ; (entendessem hoje!) essa grande verdade.
Sonia fala alguns dos principais problemas que acontecem na Guatemala: “Pobreza, altos níveis de desemprego faz com que se formem, quadrilhas, delinqüência... as mais prejudicadas são as mulheres e os jovens ”, salienta. Ela trabalha numa organização que promove a participação, especialmente das mulheres da sua comunidade. Pergunto portanto, o que acontece com a participação da juventude ? A resposta por obvia que seja não deixa de ter muita importância. “A pobreza faz com que não possamos participar, imagine que em muitos casos as crianças nem sequer podem aceder a uma educação básica. Os jovens que estão pensando no que vão comer amanhã, não podem pensar em participar ”.
Eu também falei com Luis, de Equador, ele organiza oficinas para treinar aos jovens para empregos. Através de jogos e atividade praticas ensinam profissões que possibilitam acesso a trabalho de muitos jovens que de outra forma continuariam excluídos. Conta feliz os grandes avanços que estão conseguindo o seu Presidente Rafael Correa.
Dividi o meu quarto com a Lina, uma colombiana alegre que dança tanto que parece que vai gastar o chão. A Lina trabalha no Conselho Municipal da Juventude de Envigado, em Medellín. Ela apresentou um programa pelo qual, através de projeções de filmes da America Latina na rua, conscientizam aos jovens sobre a cidadania. Eu também tive a sorte de conhecer ao Claudio de Rio de Janeiro, Brasil, um militante do PT, ele através de cursos de jornalismo treina a jovens dos bairros pobres do Rio para fazer o seu próprio jornal.
Além disso, conheci pessoas maravilhosas da África, que me fizeram admirar ainda mais esse adiado canto do planeta. A Manuela e Massangano, do Conselho da juventude de Angola. Ele se magoa mal ouvi a palavra “guerra”. É que a sua historia tem sido dura: Angola sofreu 27 anos uma terrível guerra civil, desde 1975 quando se tornou independente de Portugal. Hoje se orgulham de que seu pais tenha podido terminar com a violência. Acham que no seu próprio desenvolvimento, na força do seu povo para ir para frente. Contam para mim que o enorme trabalho que fizeram nas ultimas eleições presidenciais: caminharam porta a porta nas principais cidades, falando com as pessoas, conscientizando aos jovens da importância de votar. O resultado foi muito positivo. “Depois de 16 anos sem eleições conseguimos que votasse uma importante quantidade da população”, falam com orgulho.
Eu tive a possibilidade de trocar idéias com a Sona e o Manuel, do Conselho Nacional de Juventude de Guinea Bissau, um pequeno país ao Oeste da África. Manuel me fala de sua grande experiência em cooperação internacional. Diz sobre os organismos internacionais: “Impõe seus planos, seus técnicos que nada conhecem a realidade de nosso pais, e ameaçam com tirar a sua ajuda se a pessoa não segue estritamente suas instruções ”, conta sem dissimular sua raiva.
Nunca teve tanto sentido a frase “uma guerra nunca se ganha, todos perdem”, como quando a disse o Salama. Ele tem 18 anos. Mais da metade de sua vida viveu num acampamento de refugiados do Sahara Occidental, situado no extremo ocidental do deserto do Sahara. Conta a injusta situação de um povo pacífico que “esta obrigado desde mais de 30 anos a viver fora de suas próprias terras”. A terra está ocupada quase na totalidade por Marrocos, embora a soberania marroquim sobre esses territórios não é reconhecida pelas Nações Unidas.
Estas foram só algumas das pessoas e historias que conheci na oficina de Cooperação Sul-Sul que freqüentei como representante da Plataforma Federal de Juventudes de Argentina. Depois de uma semana confirmei a minha hipóteses inicial: o sul do planeta compartilha muito mais do que a sua localização geográfica. Uma historia de conquista e colonização, um passado de subdesenvolvimento que longe esta de ser por acaso. Divide além um presente fortemente injusto e desigual, onde o VIH/AIDS, a pobreza e a fome, a falta de educação são temas comuns.
Existem também profundas diferenças entre estes dois continentes: diferentes níveis de desenvolvimento e diferentes problemas, diferentes idiomas, culturas, diferencias étnicas, etc.
Uma das grandes perdas, uma das tantas que tivemos no sul, tem sido que perdemos a nós mesmos: perdemos de conhecer a diversidade e riqueza de nossas próprias regiões. Os latino-americanos não nos conhecemos mutuamente, existem ainda rivalidades históricas bobas. Os africanos também não são uma unidade e sofrem fortes divisões internas. Menos ainda a gente se conhece entre os dois continentes. Nos tempos da globalização todos comemos em Mc Donalds mas, quantas noticias da África chegam por dia? Todos comemoramos que ganhou Obama, mas, sabemos algo da grave situação política de Zimbabwe? As causas destas diferenças são quase obvias e não tem sentido aprofundar nelas agora.
O que sim tem sentido é comecar a pensar no sul. A tirar as vendas dos olhos “ianquis ou francesas” [1] e começar a pensar a nossos mesmos, de nos mesmos; conhecer a realidade dos países de nosso sub-continente e dos da esquecida África.
A cooperação internacional não pode ser entendida como filantropia, como um clube de países ricos que jogam as migalhas por “solidariedade” com o sul. È obvio que o desenvolvimento não vai vir de fora.
Hoje se fala de “novas formas de cooperação”. O sul sim pode cooperar com o sul. Talvez não seja com grandes quantidades de recursos financeiros, mas sim com recursos técnicos, com as próprias experiências e problemas comuns ou semelhantes. Especialmente podemos e devemos cooperar entre as pessoas, os erradamente chamados de “recursos humanos”. As novas tecnologias oferecem neste sentido uma oportunidade que nunca antes tinha acontecido na historia.
São percebidos novos ares do sul: a maior organização social, mais participação popular, mais política. Tomara esses ventos do sul soprem com força e contagiem a um mundo que mais do que nunca necessita de mudanças e esperança.
Sites muito interessantes:
Noticiasla.com Uma agencia de noticias latino-americanas baseada em artigos escolhidos diretamente da blogsfera.
Foro Latino-americano de Juventudes
IPS Agencia de Noticias da África
[1] [“Como vao sair das universidades os gobernantes, se na America Latina nao temos universidades onde ensinem o simples da arte do governo, que é a analise dos elementos particulares da América? A adivinhar saem os jovens ao mundo, com los jóvenes al mundo, con oculos ianques ou franceses e desejam dirigir um povo que nao conhecem ”. Nuestra América por José Martí. Josemarti.org
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