Parte II
Fevereiro de 2010, por Pablo Winokur
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O caso de Barack Obama foi e é muito peculiar. Começou as primárias democratas com poucas chances frente à ex primeira dama Hillary Clinton, quem levava toda a vantagem. Mas aos poucos foi construindo a sua popularidade, que fez com que ele se tornasse Presidente dos Estados Unidos. Quanto influiu a Internet? No primeiro lugar, em algo muito simples como a arrecadação: decidiu vender merchandising no seu site. Talvez não tenha substituído as contribuições dos grandes grupos econômicos, mas subiu um degrau. O site dele tinha ícones para o MSN, multimídia para o telefone celular, vídeos, podiam-se realizar doações e até tinha uma loja virtual para comprar boné, camisetas ou xícaras com a cara de Obama. Até hoje, se uma pessoa acessar o site de Obama terá antes um formulário pedindo uma doação.
Outro exemplo interessante desta campanha é o vídeo “Yes We Can”, que foi realizado por um grupo de artistas em base a um discurso de Obama. O vídeo foi colocado em Youtube e recebeu mais de 30 milhões de visitas até o momento, somando somente aqueles que mais acessos têm. Muda isso o curso de uma eleição? Que fazem 30 milhões acessos ao site numa população de 300 milhões? Mas talvez seja o uso dessas ferramentas o que permitiram que Obama obtivesse uns poucos mais delegados do que Hillary Clinton e ganhasse a candidatura para a presidência pelo seu partido. Depois na eleição nacional já tiveram influência outros fatores.
Para voltar à política argentina, um caso interessante –porém com menos sucesso- foi o de Jorge Telerman, ex chefe de Governo portenho e ex candidato a ser reeleito. Gerou um blogue no que se comunicava diretamente aos “portenhos” para falar de seus atos de Governo, de sua campanha e do que ele tivesse vontade. O interessante é que qualquer um podia escrever comentários (quase?) sem censura: podem-se encontrar de comentários críticos até alguns que elogiam que o político seja careca (rs). Foi útil para ganhar a eleição? Não, ele ficou terceiro. Mas gerou um espaço de comunicação direto com os cidadãos, hoje ainda o site está em funcionamento e é muito acessado. Mas infelizmente nos últimos meses a atualização do site tem sido esquecida.
Falando nisso, Damián Profeta, coordenador para América Latina de Taking IT Global -uma ONG internacional que promove o uso da Internet para a participação juvenil- opina numa entrevista em Opinião Sul Jovem: “O público internauta que utiliza os recursos da internet está reduzido a uma mínima expressão, embora isso não deslegitime a ferramenta. Pensemos nos vídeos com mensagens de um político. É um canal que não está midiatizado e a diferença da informação que passa pela mídia, a mensagem chega à pessoa sem cortes nem interpretações previas”.
O mais interessante das campanhas pela Internet –considera Yochai Benkler, um dos teóricos mais importantes da Internet e as novas tecnologias- é a capacidade de que os usuários se tornem participantes efetivos de uma conversa e esforço”. Além disso, elogia que qualquer pessoa, sem importar o grau de educação, pode reproduzir a mensagem e espalhá-la. “A esfera pública na rede não só é mais resistente ao controle de dinheiro, mas que também é menos susceptível ao ‘menor-denominador comum’, que é a orientação que busca adotar a mídia”. A mídia, tem que tocar assuntos que sejam interessantes para a maioria das pessoas, com novos meios, pode-se segmentar mais porque cada um pega os pontos que quiser.
Internet promove novas formas de participação, mas também aparecem criticas. A esse espaço público que se desenvolve de forma virtual. Algumas delas são resumidas por Benkler, quem depois as refuta uma a uma.
A primeira é a da sobrecarga de informação ou “objeção de Babel”. Refere a que existe tanta informação que se faz cada vez mais difícil que uma pessoa média pode ter acesso a ela: tomando a metáfora da Torre de Babel, se cada pessoa falasse seu próprio idioma, se cada um fosse emissor de sua própria mensagem, então seria muito difícil que a gente se pudesse escutar. Que pessoa pode ler os múltiplos sites que existem?
Dentro dessa mesma critica está a que o dinheiro que se investe na difusão do site é determinante. Se fosse assim, em que innova este modelo? Qual é a diferença com o modelo tradicional de comunicação em que os grandes grupos da mídia açambarcam toda a atenção?
Outro tema que surge da “ sobrecarga de informação” é a fragmentação e polarização do discurso, que foi pensada por Cass Sunstein. Segundo o seu postulado, a única forma de ter conhecimento dos sites ou espaços de participação virtual é através das buscas de meus interesses particulares ou de referências ou links que aparecem em sites já acessados. O problema –diz ele- é que as pessoas tem que procurar materiais afins a sua ideologia e na maioria dos sites aparecem links a outros espaços de ideologia semelhante. “Se as pessoas se classificam ao redor de encraves e espaços livres, o que acontece com os seus pontos de vista? E que vai acontecer com nossa democracia?”, pergunta. A resposta, segundo seu critério, é uma maior polarização.
Mas não é só isso. Tem mais criticas e para todos os gostos. Na Internet é muito fácil publicar. Mas não é tão fácil difundir. Portanto, existem pessoas que falam que isso vai terminar gerando uma concentração em poucas mãos; de fato, por exemplo, os sites de informação mais visitados são os dos meios tradicionais.
Outra relativiza os efeitos democratizadores das novas tecnologias: por um lado, nos regimes autoritários os governos podem exercer censura sobre Internet. Outros criticam que a brecha digital não permite que esta democratização chegue a todos...
Benkler responde a todas essas criticas praticamente com a mesma frase: “A comparação deve se realizar com referência ao modelo da mídia e não com a utopia imaginada a meados dos noventa sobre a democracia na Internet”. Isto é, Benkler diz –e concordo com ele- que todas essas críticas podem ser certas. Mas o importante é que–por mais que ninguém ouça as minhas opiniões- hoje eu tenho mais possibilidade de me expressar do que há 20 anos. E inclusive questiona que sejam necessários recursos econômicos para atrair mais visitas. “O dinheiro pode ser útil para captar visibilidade, mas a estrutura da web diz que o dinheiro é necessário, mas não suficiente para chamar a atenção ”.
Em referência aos temas da brecha digital e censura, vale resgatar uma frase de Manuel Castells do texto “Internet Liberdade e Sociedade”. “Tanto Internet, quanto a liberdade, somente podem viver nas mentes e nos corações de uma sociedade livre, livre para todos, que modele as suas instituições políticas a imagem e semelhança de sua pratica de liberdade”. Em resumo, as sociedades autoritárias, continuaram sendo autoritárias; Internet pode ser uma ferramenta democratizante, mas não a solução dos problemas.
Além desses pontos expostos por Benkler existe outra critica a este modelo de participação virtual. Cada vez mais pessoas –especialmente jovens- “participam” através da Internet. O medo é que se gere uma perda de participação territorial, tanto ou mais importante do que a virtual: é muito bom que utilizemos a Internet para comunicarmos e pensar o mundo no qual queremos morar; mas melhor ainda é que tomemos ações concretas, que pintemos uma escola, arrecademos dinheiro para um refeitório, ir casa por casa a pedir votos para um determinado político, gerar cursos de treinamento e oficinas presenciais.
Os jovens entrevistados para este artigo concordam com isso e salientam em todo momento que a participação virtual deve ser um complemento. María Sol Tichnik, coordenadora de Geração Livre, esclarece que Internet deve ser vista como uma ferramenta mais e não como um fim em se mesmo. “A participação em Internet não substitui de forma nenhuma o tipo de participação convencional e acho que também não procura fazê-lo. Todo o contrário: os meios digitais e o uso das novas tecnologias de comunicação (TICs) permitem reforçar a participação cidadã em geral. As TICs são uma ferramenta revolucionaria,que mudou a forma de comunicação expressão, mas não pode substituir os vínculos ‘cara a cara’, mas os reforçam, consolidam e até favorecem a criação de novos vínculos sociais”, fala.
Selene Biffi, uma italiana que coordena um grupo de jovens voluntários que desenvolve e difunde cursos através da Internet opina: “Internet e as TICs podem oferecer uma ajuda para convencer as pessoas de alguma coisa, fazer lobby, difundir informação, recrutar voluntários. Mas por outro lado não se pode esquecer que a brecha digital ainda é muito grande. Por causa disso é desejável desenvolver atividades e projetos na terra, especialmente onde as TICs não possam se envolver”. E adiciona: “Além disso o contato pessoal continua sendo o caminho mais eficiente”.
Nós perguntamos no começo da primeira parte deste artigo se a Internet e as novas tecnologias são o caminho para resolver a apatia e a falta de participação dos cidadãos no regime democrático. Respondemos que não. Internet é simplesmente uma ferramenta, cuja utilização final depende pura e exclusivamente de assuntos sociais que ultrapassam à tecnologia.
O bom, é que enquanto milhares navegam em sites pornográficos ou procuram fofocas da estrelas da TV, existem uns poucos, uma minoria, que escolhe se exprimir e participar; talvez de outra forma não pudessem fazê-lo. Portanto, bem-vinda Internet à vida política; bem-vinda a esta nova esfera política.
Você pode ler a primeira parte do artigo Internet faz com que sejamos melhores cidadaos? (Parte I)
Damián Profeta, coordenador para América Latina de Taking IT Global, opina sobre o tema entrevista em Opiniao Sul Jovem
O discurso de Obama em video “Yes We Can”
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