Ciber- participação
Fevereiro de 2009, por Pablo Winokur
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Para algumas pessoas é o mundo ideal, uma forma de substituir à obsoleta e passiva democracia representativa: conseguir que as pessoas possam participar do lar, sem se movimentar, com somente um clique no computador. O sonho de Rousseau agora é possível: todos nós podemos votar de nosso lar e fazer parte da “vontade geral”. Internet permite isso e mais ainda.
Possibilita que qualquer um tenha a seus próprios meios de comunicação social: a produção e distribuição de informação já não é monopólio das grandes corporações, qualquer um pode ter um blogue e falar o que quiser, quando quiser e as pessoas que quiser. Não temos que esperar ao encerramento da edição, não tem que sofrer a censura de chefe nenhum, não tem que respeitar a posição dos patrocinadores e não tem limites físicos no se refere à chegada da mensagem. Quem quiser ouvir que ouça ! pronto.
Internet permite que qualquer pessoa possa se apresentar a eleições. Embora ainda a indústria da publicidade on line é limitada, já não é necessário fazer um pagamento de milhares de dólares para fazer uma publicidade: com uma câmera digital pode-se criar um vídeo amador e colocá-lo no Youtube. Somente deve ser criativo no que se refere à apresentação e as pessoas começam a assistir ao seu vídeo.
Internet permite gerar sentido coletivo. Através de ferramentas como Wikipedia é possível criar debates coletivos sobre determinados significados e conseguir consensos que de outra forma tivesse sido impossível conseguir. Falando sobre quem é Hugo Chaves, por exemplo, a gente já está participando em política. Antigamente, as enciclopédias eram fechadas e os seus conteúdos, decididos por umas poucas pessoas, agora ela é desenvolvida por todos.
Internet permite gerar debates livres, através de fóruns e sugestões nos blogues . Com os meios tradicionais sempre tínhamos alguém filtrando as opiniões dos outros: seja por tempo ou espaço. Agora é livre, se os criadores assim o desejarem. Qualquer post num blogue pode ter muitíssimos comentários. Todo isso é possível pela Internet. Por tanto, segundo isso, as pessoas deveriam estar mais animadas e desejosas de participar no público.
Um dos teóricos mais importantes da Internet e das novas tecnologias, chamado Yochai Benkler, explica quais são os dois motivos pelos quais ele acha que a Internet revoluciona o mundo público. No primeiro lugar, fala que a arquitetura com a que foi construída a rede gera uma mudança de paradigma: antigamente qualquer tipo de comunicação era unidirecional; a mídia decidia publicar ou emitir alguma informação e os leitores ou ouvintes a consumiam passivamente. Somente eles podiam mandar cartas ou ligar pelo telefone para deixar a sua opinião. A arquitetura da rede é “multidirecional” e faz com que todos sejam potencialmente emissores e receptores das mensagens.
A segunda mudança tem a ver com os custos quase inexistentes para emitir a mensagem: qualquer pessoa que tenha acesso a um computador com Internet pode publicar o que quiser. “A possibilidade de se comunicar em forma simples e efetiva na esfera pública permite aos indivíduos virar de leitores e ouvintes passivos a potenciais falantes e participantes em conversas ”, explica Benkler num texto intitulado “A Emergência de uma esfera pública em rede” [1].
Antes, qualquer pessoa que quisesse dizer algo teria que poupar muito dinheiro para desenvolver algum meio de comunicação social: uma revista, um programa de radio ou de televisão. Mas fazer isso, garantia que alguma pessoa o lesse ou ouvisse. Com as novas tecnologias, somente é necessário ter vontade.
Hugo Pasarello Luna é um politologo de menos de 30 anos de idade que estava e está preocupado por gerar consciência cidadã respeito ao voto. Para contribuir com o seu grão de areia criou Argentina Elections, um site que tenta contribuir ao “conhecimento e análise” das eleições na Argentina, e ao “fortalecimento e aprofundamento do debate público sobre o regime eleitoral argentino e a sua influência no sistema político ”. O site foi desenvolvido por ele e no ano 2007 teve a participação de nove voluntários que se treinaram, pesquisaram e publicaram os seus relatórios, que foram lidos por milhares de pessoas nos dias prévios as eleições 2007. “Poucas pessoas tratam o assunto com uma perspectiva acadêmica, profissional e independente. O site oferece muita informação sobre o sistema eleitoral e sobre as eleições em particular, incluindo material que às vezes é difícil de encontrar na mídia, como as plataformas de todos os candidatos”, explica Hugo.
Antigamente aquela pessoa que desejava conhecer a plataforma de cada um dos partidos tinha que pegar o ônibus até o prédio da Justiça Eleitoral e pedir xeroque das plataformas. Agora com Internet, surgiu a possibilidade de conhecer os sites de cada partido político e olhar on line a plataforma se ela estivesse disponível no site. O assunto é fácil: você pode fazer isso através de Argentina Elections: é muito simples e num só site. Mas o que aconteceu? Milhares de pessoas olharam as plataformas dos partidos políticos? Faz com que os partidos tenham mais cuidado ao desenvolver as plataformas pensando que eles estão sendo observados? . Eu acho que não. Mas pelo menos algumas pessoas estão mais informadas do que antes.
Um trabalho realizado pelo Center For Social Media define aos “meios públicos” como projetos criados para dirigir e mobilizar “públicos” através da mídia. Quando falam em “públicos”, refere-se ao termo de Jürgen Habermas: cidadãos preocupados pelos assuntos públicos. A existência deste tipo de mídia- segundo as autoras, Pat Aufderheide e Jessica Clark- melhora a qualidade da democracia, porque desenvolve espaços e ferramentas para que os cidadãos possam debater e falar dos temas que são de interesse público. Além disso, podem tirar conclusões no que se refere a esse problema. O público ao que fazem referência está relacionado com o termo Habermas de “Esfera Pública”: “Espaços sociais e práticos nos que as pessoas descobrem os aspetos públicos e encontram soluções ”. Este tipo de meios são mecanismos para se comunicar no que se refere à esfera pública. É importante esclarecer que o conceito inclui o denominado jornalismo cidadão, mas abrange muito mais ainda. O único e fundamental requisito para que sejam “meios públicos” é que não sejam unidirecionais.
Isto é, que qualquer pessoa possa entrar e participar do debate. No mundo se geram centos de espaços virtuais de pessoas que criam meios ou propostas on line com o objetivo de comunicar uma idéia: de convencer aos outros de que determinados assuntos são importantes para melhorar as sociedades nas que moramos. Qualquer ferramenta de comunicação serve para cíber-participar. Benkler menciona algumas mais simples e outras mais complexas. Por exemplo, os e-mails. Durante os dias de conflito pelas retenções na Argentina circularam um monte de mails pedindo à comunidade a apoiar a um ou outro ator: de explicações sobre como se afetava a renda do campo por culpa das retenções, até pedidos de organizações do governo de “defender ao Governo popular”. Esta forma de participação é principalmente através das redes de contatos, mas também grupos de e-mails.
Um segundo degrau, são os sites que permitem, por exemplo, dar a conhecer a ideologia de uma ONG. Qualquer pessoa pode expor texto e imagens. O terceiro degrau-em tempo e qualidade- aconteceu com a aparição dos sites dinâmicos: sites que podem ser atualizados em forma constante, em qualquer momento e local. Os blogues, um subtipo dentro dos sites dinâmicos, foram a ferramenta mais difundida, especialmente porque são de graça e muito simples de utilizar. Uma característica importante dos blogues é o fato de que é possível escrever comentários no final de cada artigo. Não é por acaso que Jay Rosen, o teórico fundador do jornalismo cidadão, definiu ele como “A Máquina da Primeira Emenda”, referido à cláusula da constituição norte-americana que garante a liberdade de expressão. “Essa cultura –explica Benkler- é fundamentalmente diferente da cultura da mídia tradicional, onde enviar 500 páginas de relatórios a milhares de usuários era custoso e difícil”.
Fundação Geração Livre, é uma ONG que promove a participação da cidadania através do uso das Novas Tecnologias. O seu trabalho principal é oferecer cursos virtuais e presenciais orientados ao uso da Internet como ferramenta de participação social. Dessas experiências surgiram alguns sites de participação cidadã: um de arte e cultura (www.entuarte.com), outro de jornalismo cidadã (www.gritoargentino.com) e por último um site de noticias da América Latina, [www.noticiaslatinoamericanas.com).
O interessante dos sites é que qualquer usuário pode fazer um post de um artigo de opinião, informação etc. São propostas de jornalismo cidadão, mas que não visam somente informar, mas que qualquer pessoa possa se exprimir livremente. Isto é, que os sites são pensados como uma forma de militância e participação. O que faz Juan Carlos Bermudez é semelhante, coordenador de Rede Camaleao um espaço alternativo de “noticias, oportunidades e diálogo de diferenças entre os jovens”. “Basicamente constrói uma agenda pública no que se refere ao tema da juventude onde os opinam são os jovens ou organizações, dividem informações e se comunicam com os outros”, explica Juan Carlos. O site possui fóruns, blogues internos e outras ferramentas que promovem a criação de conteúdos, difusão e participação. “Acontecem discussões sobre os temas da agenda ou são organizados encontros para refletir em conjunto com outras entidades ”, fala.
Todos esses modelos estão em permanente mudança . Jay Rosen convidando a se envolver com o jornalismo cidadão fala num texto: “É uma mistura de profissões, com o talento dos amadores. Algo de formato com algo de estilo livre. Algumas coisas decididas pelos editores, outras pelos participantes. Nós ainda não sabemos qual é a mistura ótima”.
A cíber- participação vai se espalhando. Benkler conta o caso dos cidadãos filipinos que utilizaram torpedos (SMS) para organizar um movimento contrário ao governo desse momento. Na Argentina uma grande parte dos protestos durante o conflito com o campo no ano passado foi organizada por torpedos ou mails.
Internet e as novas tecnologias são o caminho para resolver a apatia e a falta de participação dos cidadãos no regime democrático? Internet é a solução aos problemas de democratização? É Internet o caminho para terminar com os autoritarismos, os abusos de poder e propender a uma democratização maior? A resposta para todas essas perguntas é não. Internet e as novas tecnologias não servem por si mesmas para isso. São somente um meio mais para comunicar . “A esfera pública na rede não está feita por ferramentas senão por atividades sociais de produção que fazem possíveis essas ferramentas ”, considera Benkler.
Num próximo artigo vão ser analisados os outros usos da Internet para promover a participação e fundamentalmente as criticas a este mundo ideal que muitos pressagiam a partir do uso das novas tecnologias.
Dados interessantes:
Internet, liberdade e sociedade: uma perspectiva analítica, Castells, M. (2001)
The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom (capítulo 3), Benkler, Y. (2006)
Citizen Media: A Progress Report, Gillmor, D. (2007)
Citizen Journalism Wants You!, Rosen, J. (2007)
Bloggers vs. Journalists is Over, Rosen, J. (2005)
Making Journalism More Public’ in Scammell, M. and Semetko, H. (comp.) The Media, Journalism and Democracy. Aldershot: Dartmouth. PN4751 .M435 2000
The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom (capítulo 7), Benkler, Y. (2006)
The Polarization of Extremes. The Chronicle review. Vol. 54 No. 16, Sunstein, C. (2007)
The Internet is making us stupid. Salon.com, Noviembre 7, Van Heuvelen, N. (2007)
Frequently Asked Questions: Public Media’. Center for Social Media, American University, Aufderheide, P. and Clark, J. (2008)
Livingstone, S. (2005) ‘Critical Debates in Internet Studies: Reflections on an Emerging Field’ in Curran, J. and Gurevitch, M. (eds.) Mass Media and Society. London: Hodder Arnold. Campañas On Line. Las nuevas configuraciones de la política, un artículo de Paggi, A.
Youth Action for a Change (Italia)
Fundación Generación Libre (Argentina)
Argentina Elections (Argentina-Canada)
La Red Camaleón (Colombia)
[1] É parte do seu livro The Health of Networks
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