Opinion Sur Joven

Nº46

Futebol feminino na favela 31.

Quando o esporte oferece contenção.

Março de 2009, por Alejandro Urman

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Uma ONG organiza e dirige um grupo de adolescentes que praticam futebol feminino na favela 31 de Buenos Aires. O esporte serve como um âmbito de contenção para que as garotas possam se desenvolver em outras áreas e exprimir outro tipo de problemas: discriminação dentro e fora da favela, sexualidade e visão de futuro são alguns dos problemas que tratam junto com a sua treinadora e uma psicóloga social.

A favela 31 é uma das zonas emblemáticas da pobreza na Cidade de Buenos Aires. Na Argentina se chama de “Villa” ou “Villa Miseria” aos bairros pobres –semelhante a “Favela”- que se caracterizam por ser terrenos invadidos (em algum momento foram baldios, por exemplo), onde as famílias constroem um pequeno bairro, sem regularização fundiária, não pagam impostos, nem tem acesso aos serviços básicos- como abastecimento de água potável, energia elétrica, esgoto - e são indicados como um ninho da delinqüência.

A Villa 31, incluindo a Villa 31 bis, tem aproximadamente 30.000 habitantes, e poderia ser dito que é um bairro mais de Buenos Aires. É uma das favelas mais conhecidas, talvez seja por sua localização geográfica, talvez seja pela sua historia. E, além disso, é uma zona de marginalidade e muitas vezes, os outros vizinhos de Buenos Aires olham com preconceito ao bairro pelos crimes que a mídia atribui.

Além das fracas condições de vida, o bairro possui uma atividade social intensa, comércios e diferentes ruas onde nos horários centrais passam um monte de pessoas. Está localizada numa área de alto valor imobiliário, circundada pela estação de ônibus da Cidade e a só uns metros do Palacio de Governo.

De dentro da Villa podem ser vistos os contrastes com as imponentes Torres de Retiro e o luxuoso Sheraton Hotel. Para alguns moradores é o bairro de onde nunca quisessem ir embora, para outros um local que dá medo e se olha de longe. Neste local polêmico de Buenos Aires funciona desde 2005 a equipe de futebol feminina. Um espaço para o esporte e o companheirismo no emblemático estádio sobre “A Avenida” da favela 31.

Futebol, paixão de multidões

O projeto Goles e Metas para as garotas foi fundado pela estadunidense Allison Lasser, que começou com a tarefa em 2005. Dois anos depois, ela voltou aos Estados Unidos para buscar a maneira de que o projeto continuasse. Para isso fundou uma ONG em San Francisco, chamada Soccer For Success. Conseguiu algumas doações mínimas e associou-se com a organização local Democracia Representativa. “A ONG encarregou-se da iniciativa em 2007 e dirige todas as ações. Contrata o pessoal, desenvolve novos aspetos do projeto, realiza a colheita de fundos e procura espalhar e desenvolver projetos semelhantes”, explica Hugo Pasarello Luna, coordenador operativo da proposta durante o ano passado.

A Mónica Santino tem 43 anos e foi jogadora federada de futebol até 1999. Hoje coordena a equipe de futebol feminino da Villa 31, que agrupa a 20 garotas de entre 12 e 17 anos, que cada quarta feira e sexta feira se juntam a jogar futebol. A Mônica é uma mulher com muita experiência no futebol e possui uma presença que muitos homens invejariam. Tem habilidade e carisma, o que faz com que as garotas respeitem e ouçam quando ela fala. Falando num tom meigo, ela pode comunicar uma mensagem clara e simples, tanto nos treinamentos quanto no jogo. E que melhor modelo que uma esportista que ama o que faz e possui a maturação suficiente para transmitir a sua paixão pelo esporte quando começa a percorrer o caminho da adolescência.

Ensinos de vida como “a raiva me tira do jogo ”, “eu venho a jogar não a brigar ”, ditas no contexto de uma partida de futebol tem a força e a potencia de ser aplicada a uma situação regulamentada e vivencial que fica fixada na cabeça das garotas. Longe das frases vazias como “Não à violência” ou “O importante é concorrer”, as adolescentes a ouvem e aos poucos vão se tranqüilizando.

Adolescentes, adolescer

Nas sextas, além disso, as acompanha uma psicóloga social. A idéia é aproveitar a desculpa do futebol para poder trabalhar outros temas que afetam a elas como pessoas. Liliana Cura, psicóloga social, está nos treinamentos da Mônica uma vez por semana. A sua tarefa é tratar temas muito freqüentes na favela, que, talvez sem o futebol, nunca se trabalhariam: violência familiar, discriminação, sexualidade são alguns deles.

A Liliana vai aos treinamentos, leva alguma coisa para comer e tenta se aproximar, chega a ser mais uma adolescente. Embora as garotas sempre recorram a ela, ela lembra que está para o que elas necessitarem. Funciona assim como um ajuda, em situações de conflitos pessoais. “Quando contam o problema pode ser algo familiar, pessoal, algum relacionamento que esta começando, algo na escola ou na mesma equipe. E nesse momento eu tenho a oportunidade de pensar junto com elas alguma solução não violenta ao conflito”, conta. Às vezes ela vai a casa delas para poder falar com os pais e ajudá-las no dia a dia.

Discriminar e ser discriminado

Assim como a sociedade inteira apelida de “faveleiros” aos moradores destas villas , também existe discriminação dentro do ambiente desse bairro. A favela está longe de ter uma população homogênea: tem diferentes coletividades como a paraguaia, boliviana, peruana e argentinos provindos de diferentes províncias. A discriminação e a divisão em classes sociais não é, portanto, algo alheio. O pai da psicanálise, Sigmud Freud expus, quase como um axioma, que o vivenciado passivamente se repete muitas vezes de forma ativa. Isso significa, por exemplo, que quando alguém se sente discriminado ele vai discriminar aos outros. A Liliana conta que as garotas que vão a escolas fora da favela, reclamam pela discriminação de seus colegas de aula: olham de soslaio por morar na favela 31. “Pode ser discriminação verbal, ficar excluída de atividades, o una hora de se relacionar com garotos. O destino do relacionamento de casal vai ser da favela. É difícil pensar que seja de fora”, explica Liliana.

A pesar de sofrer diferenças, elas também tem receio com os bolivianos ou paraguaios que moram na favela. A Liliana trabalha para lidar com estes conflitos e oferecer ferramentas para poder resolvê-los.

Um projeto replicável

“Goles e Metas” demonstra que há muito que se pode fazer para conseguir a inclusão e integração dos adolescentes de diferentes lugares, geográficos, econômicos e culturais. Também a partir do esporte as garotas aprendem muitas coisas que nem sempre são ensinadas na escola ou em outros locais. Concorrer com desconhecidos, ter um grupo de pertinência, desenvolver um cuidado do corpo e estado físico entre outras vantagens.

Não são necessários planos de milhares de pesos para conseguir, através do esporte resultados interessantes. Conhecer e apoiar este tipo de empreendimentos é importante para crescer e fortalecer aos nossos adolescentes como a sociedade toda.

+Info

Um pouco da historia da favela La Villa 31

O blogue das garotas garotas da 31

Algumas imagens das garotas imágenes no site da ONG Democracia Representativa.

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