Junho de 2007, por Leila Mucarsel
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Eu acho que sou uma pessoa com sorte: a água da minha torneira sai transparente, quase sem sabor e nunca a cheirei, mas acho que não tem nenhum cheiro em particular.... Quase eu me atreveria a acreditar: Tenho na minha casa a água que cumpre a regra dos 3 “i”: é “incolor, inodora, e insípida”, como apreendemos na escola.
Mas aparentemente a minha mãe não fica contente com isso. Outro dia veio um senhor e bateu a porta: “Bom dia Senhora, eu venho lhe oferecer um purificador”. Com certeza você conhece. É esse aparelho que se coloca nas torneiras e - nas categóricas palavras do vendedor - “absorve as impurezas químicas e bacteriológicas (pesticidas, metais pesados, cloro, bactérias e vírus) da mesma forma que sustâncias aromáticas e cheiros desagradáveis”.
Há pessoas que têm esses aparelhos no chuveiro e não tomam banho se não for com a água ultrapurificada. Há pessoas que não bebem água se não for água engarrafada e até pessoas que fazem hidroterapia para ter a pele mais umectada. Não vejo nada de ruim nisso. Mas também, há pessoas - muitas pessoas- que não tem possibilidades de ter este serviço tão essencial e básico para a vida. Duas partículas de oxigeno, uma de hidrogênio… H2O, a mais famosa das fórmulas químicas. Que há por trás do assunto da água? Tudo o que você sempre quis saber – ou melhor dito, o que com certeza nunca perguntou - e vale a pena conhecer desta temática.
Que propriedade deve ter a água para ser considerada potável? O Código Alimentar Nacional argentino estabelece: "Com as denominações de Água potável do subministro público e Água potável de uso domiciliar, entende-se que é apta para a alimentação e uso domestico: não deverá conter substâncias ou corpos estranhos de origem biológico, orgânico, inorgânico ou radiativo em graus que façam com que seja perigoso para a saúde. Deverá apresentar sabor agradável e ser praticamente incolor, inodora, límpida e transparente”. Depois aparece uma série de características físicas, químicas e microbiológicas que deve cumprir.
Mas, embora nossa Constituição e numerosas leis nacionais e provinciais reconheçam e regulamentem o direito a ter água potável, este é violado uma enorme quantidade de vezes.
As leis internacionais também contemplam amplamente algumas garantias. O Acordo Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais –sustentado por 145 países, incluída a Argentina - estabelece que o acesso à água é direito humano fundamental.
Além disso, entre tantos outros exemplos, o artigo 24 da Convenção dos Direitos da Criança determina que os estados devem garantir o acesso a água potável a todas as crianças. Mas, vocês já conhecem, o dito popular “entre dizer e fazer há uma diferença muito grande…”.
Tristes imagens cotidianas: bairros inteiros sem acesso a água potável, sem acesso aos serviços mínimos de sanidade (saneamento), pessoas que são obrigadas a consumir água poluída, etc. Água poluída, com bactérias muito perigosas, coliformes fecais, por exemplo, geralmente são encontradas ao analisar a água de muitas regiões. Não pensem no famoso Rio Ganges na Índia, onde os moradores tomam banho sem se importar com os corpos flutuando. Isso acontece aqui, bem perto de nossos lares. Por exemplo, na Favela 31 no bairro de Retiro, a poucos quarteirões do Obelisco em Buenos Aires, é emblemático.
Ela é extraída de fontes superficiais, como rios, estuários, e represas e de fontes subterrâneas, para as quais se constroem valetas de grande profundidade. Depois é tratada pelas empresas de serviços sanitários para fazê-la apta a ser consumida pelos humanos.
Os umidais são considerados os ecossistemas mais produtivos do planeta. São fontes de diversidade biológica, que aporta a água e a produtividade primária da que enumeráveis espécies de plantas e animais dependem para sobreviver.
Geralmente se diz que as montanhas são "depósitos de água" da natureza, porque graças a seu tamanho e forma interceptam o ar que circula pelo planeta, o ar ascende a alturas onde se condensa e forma nuvens que produzem chuva e neve. Cada dia, uma de duas pessoas no mundo consome água de montanha. Eu como moradora da província de Mendoza entro nesta categoria claramente, e nos invernos que neva pouco a gente sabe que vai faltar o valorizado líquido da vida.
Chama-se assim o projeto que consiste em somar o uso real da água através de uma ferramenta de cálculo, ou sua "pegada hídrica" ("water footprint"), equivalente ao total da soma do consumo doméstico e a importação de água virtual do país, menos a exportação de sua água virtual.
Existem numerosos usos do recurso hídrico que geralmente não levamos em conta ao pensar no assunto. A seguir alguns exemplos:
O uso industrial é um dos principias e dos mais demandantes. Você sabia que para produzir uma xícara de café se necessitam 140 litros de água? E que 550 litros é a quantidade de água necessária para produzir farinha suficiente para uma porção de pão (400 gramas). A produção de 1 litro de leite requer 1000 litros de água. A produção de 1 quilo de: - arroz requer 3.000 litros de água - milho requer 900 litros de água - trigo requer1. 350 litros de água - carne requer 16.000 litros de água
Olha só: o turismo de golfe tem um grande impacto sobre a extração de água. Um gramado de golfe de 18 buracos pode consumir mais de 2,3 bilhões de litros diários.
Existem declarações sobre direitos humanos nas Nações Unidas que falam do direito a vida (artigo 3). Portanto a água é um direito universal, já que sem ela não é possível a vida. Podemos viver ate 40 dias sem comida, mas somente 5 sem água.
• 54% da população africana não tem acesso à água potável. • 2600.000.000 pessoas não têm esgotos • 1100.000.000 pessoas não têm acesso a água potável • Somente 2% de toda a água do planeta é doce, e de ela, menos da metade é apta para uso humano (ONU).
Alguns acham que a crise atual da água acontece porque não existe água suficiente para o mundo todo. Desde o PNUD rejeitam essa idéia rotundamente e consideram que o problema tem uma origem mais incômoda para as elites políticas mundiais: a pobreza e a desigualdade .
Por outro lado, o plano de Ação Mundial do Relatório sobre Desenvolvimento Humano considera que necessitamos em um ano 10 bilhões de dólares para atingir os objetivos de desenvolvimento do Milênio e melhorar notavelmente o acesso à água limpa e serviços de saneamento para todos os habitantes do planeta. Apesar de que 10 bilhões pareçam muito dinheiro, os governos do mundo gastam essa quantidade em equipes militares cada oito dias! Imagine os resultados se utilizássemos uma pequena porcentagem das despesas militares para oferecer serviços de saneamento e água limpa para todos.
Definitivamente, o assunto vai dar pano pra manga. É importante não deixar de mencionar as conseqüências políticas que acarretará um mundo com água pura para uns poucos e água podre para a maioria. O custo do serviço vai ser cada vez mais caro e as desigualdades vão se agravar no interior das sociedades de uma forma insustentável. O bem natural mais valioso para a vida humana não pode estar sujeito às leis do mercado como se fosse um bem de luxo.
A mudança climática demonstra que a situação crítica vai continuar no longo prazo. Em alguns lugares do planeta, como a Austrália ou a Espanha, as secas são costumeiras e o temor ao desabastecimento cresce. O panorama é pouco alentador.
A chave está na conscientização. Se a gente consegue pôr na agenda da mídia ou dos políticos - como está instalada a do petróleo - a metade do caminho estará percorrida. Mas, mais uma vez, a saída está na capacidade de pressão e resistência de todos.
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