Uma análise das eleições legislativas na Argentina.
Julho de 2009, por Pablo Winokur
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No outro dia queria ir ao cinema com minha namorada. Eu queria assistir um filme de ação. Ela preferia uma comédia. Eu não tenho problema com assistir um filme de comédia. A ela sim os filmes de ação. A última vez que fomos ao cinema assistimos um filme que eu queria, por isso ela escolheu o que filme assistir. Na próxima saída eu vou escolher o filme. No outro dia eu estava com meus amigos e pedimos pizza. Eu queria de muzzarella; Andy queria pizza margarita. O resto falou que tanto faz. Pedimos metade e metade, e pronto, combinado.
No outro dia um amigo pediu um aumento salarial no trabalho. Ele queria um aumento de 20%. O chefe explicou que a empresa estava passando por uma situação delicada pela crise, e a companhia estaria disposta a aumentar em apenas 10% o salário dele. Meu amigo não ficou conforme, e começou à procura de alternativas. Assim, eles descobriram que a empresa estava produzindo menos e vendendo menos, poderiam reduzir o seu horário de trabalho. Meu amigo recebeu um aumento menor do que o procurou, mas trabalha apenas seis horas por dia e agora o seu trabalho é muito tranquilo.
Na vida cotidiana estamos todo o tempo tentando concordar. Qualquer sociedade civilizada é baseada em acordos tácitos ou explícitos que permitem que os seres humanos convivam. Casais, amigos,parceiros, empresas e organizações, entre outros, funcionam apenas quando as pessoas que compõem esta "parceria" têm a capacidade de negociar. Quando isso não acontece, o que une a este grupo de pessoas se dissolve ou quebra.
A Argentina acabou de concluir um novo processo eleitoral. E, além do resultado, quero dizer que ela foi a campanha mais pobre e vazia de propostas desde a campanha de 1983. Não foi discutida uma idéia só. Apenas no final eles abriram um mini-debate sobre a estatização das empresas públicas. O resto era intermináveis discussões sobre temas que são de interesse dos especialistas: candidatos testemunhais (A lei eleitoral argentina possui uma peculiaridade que possibilita as chamadas candidaturas testemunhais. Um candidato pode vencer a eleição, usando toda sua popularidade e estrutura pessoal, e não assumir, deixando a vaga para outra pessoa do partido.) etc, etc, etc,... E tudo isso gerou muita inquietação na cidadania e muita confusão.
Poucos dias antes da eleição eu palestrei em diversas organizações sociais tentando esclarecer a paisagem eleitoral. Em média participaram cerca de 30 pessoas cada. Antes de começar com a minha conferência,eu pedi para que levantaram a mão aquelas pessoas que achavam que sabiam o que se ia a votar . Para impedir que as pessoas se incomodassem, expliquei que não importa se eles sabiam ou não, não era uma prova, só queria que me disseram se achavam saber o que era votado. Apenas uma das minhas palestras levantaram as mãos a metade daqueles que estavam, no resto, apenas dois ou três mãos solidarias ficaram levantadas. Conclusão, as pessoas não sabiam o que era escolhido. Além da minha percepção, uma enquete realizada 10 dias antes da eleição por uma Universidade divulgou que 46% dos moradores de Buenos Aires não podiam lembrar mais de um candidato.
Mas porquê tanta confusão? Todas as pessoas são ignorantes? Isso poderia ser uma resposta, mas uma vez um professor me ensinou que, se numa sala de aula de 30 estudantes, não passam no exame 25, o problema não é dos alunos, é dos professores. Neste caso, se a maioria das pessoas não pode identificar o que é o que tem de votar nas eleições, o que falha não é o povo, mas o sistema.
Um tempo atrás eu escrevi que era necessário reforçar os partidos políticos. E eu acho que terminadas estas eleições, o peso dos fatos, uma vez mais, demonstra essa necessidade: os políticos devem parar de jogar sozinhos e começar a trabalhar juntos. Como referi no início, viver em sociedade significa, necessariamente, que temos de chegar a um acordo entre nós. O tempo todo em nossa vida diária negociamos com alguém. Mas na política parece ser uma missão impossível, não só entre os adversários, mas também entre aqueles que dizem que estão no mesmo espaço. Mesmo aliados não estão se comunicando uns com os outros, parece que existe um abismo de distância entre cada um dos líderes. Nada, absolutamente em nada, eles podem pensar de jeito semelhante e puxar para o mesmo lado.
A política argentina hoje não é jogada no âmbito das idéias, mas de ódio, simpatia e empatia pessoal. Por causa disso torna mais difícil organizar espaços que envolvam a mais de uma pessoa.
Mas podemos culpar aos políticos? Em parte sim, porque são eles os responsáveis pela gestão do público, que é de todos. Mas, como eu dizia antes, quando ninguém pode passar por no exame, provavelmente não seja culpa dos estudantes, mas do professor ou do método de avaliação.
Retornando ao sistema. Pode ser necessário fazer algumas reformas para incentivar as pessoas a se juntar nos partidos políticos e não incitar a produção de espaços unipessoais.
Não são necessárias alterações muito importantes como a que alguns pensavam em 2001, mas pequenas alterações metodológicas: se os cidadãos não sabem o que se vota, dificilmente possam dar legitimidade ao sistema.
Que mudanças teriam de ser discutidas? Terminar com as transferências indiscriminadas de distrito para evitar que, só porque um candidato tem sucesso nas enquetes ele mude de província para obter um cargo. Isto permitirá o surgimento de novos rostos.
Proibir pular de um cargo para outro, ou, pelo menos, impedir os passes de cargos executivos a legislativos. Parece um clássico que os vices presidentes deixem o papel para o que foram votados, e se apresentem para outra votação.
Limitar a participação dos ministros como candidatos é outra necessidade. Ou pelo menos que demitam antes de iniciar a campanha eleitoral.Eu acho que um que um cara que está 20 horas diárias fazendo a campanha não pode se dedicar a gerenciar sua área.
Mas, falando de fortalecer os partidos políticos, um problema ainda maior aparece. Hoje, há uma infinidade de candidatos que dizem que estão associados ao Partido Justicialista , mas depois , como eles não têm lugar nas listas do seu partido chegam a um amigo para procurar um espaço ao que não pertencem . Então os argentinos ficamos acostumados a que qualquer um pode se tornar candidato, ainda sem ter uma base de representação de um partido. Mas como evitar que isto aconteça? É muito simples. Prevenir a nomeação de candidatos que não são afiliados ao espaço político em que são postulados. Assim termina esta história de mais de um candidato por partido e que as internas dos espaços políticos sejam definidas na eleição geral.
A forma de votar também necessita mudanças. A cédula única ou a votação eletrônica podem ser algumas opções a fim de eliminar práticas prejudiciais e eliminar a confusão das listas horizontais também chamadas de "espelho". Para obter mais informações sobre isso, clique aqui-> 1034]
Enfim, todas estas medidas levariam a um fortalecimento dos partidos políticos e ficaria menos personalizada a política. A cidadania teria mais esclarecido que espaços políticos são apresentados, em cada eleição, evitando lembrar centenas de nomes que em dois anos terminam desaparecendo do mapa político eleitoral.
As maiores partes destas idéias de alterações não surgem a partir de minha mente, mas já foram apresentadas no Congresso. Só é necessário que os legisladores debatam.
Viver em sociedade significa concordar. Se não o fizermos, é difícil que nosso país possa progredir e evoluir. O que não significa que limitemos as nossas idéias, mas ir trabalhando para que elas se concretizem: convencer os outros que de que o nós propomos é melhor e não impor. Isso não só fará com que vivamos com mais tranqüilidade, mas também vai permitir que quando as alterações estejam ocorrendo, elas sejam mais duráveis ao longo prazo. Caso contrário, o próximo governo irá destruir tudo o feito pelo atual e assim por diante.
Será isto um sonho? Acho que não. Enquanto na Argentina tivemos uma eleição onde se escolhia de entre pessoas com duvidosas propostas e idéias difusas a nossa irmã Uruguai experimentou uma inédita interna aberta, onde os partidos políticos uruguaios sólidos definidos definiam a aqueles que seriam candidatos a presidente. Completadas as eleições, os perdedores ofereceram sua plena cooperação para aqueles que foram vencedores. Esse é o modelo que seria bom para a Argentina. E não devemos procurá-lo no hemisfério norte.
Desenho Hernán Pitarque
Eleições na Argentina:
Jornal La Nación Disponível só em espanhol.
Infobae Disponível só em espanhol
Jornal Clarín Disponível só em espanhol
Página 12 Disponivel só em espanhol
enquete de la Universidad de Belgrano acerca de las elecciones legislativas 2009 . Conteúdo Disponivel só em espanhol
Artigo de OSJ:
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