Os sonhos interrompidos.
Setembro de 2009, por Nohemy Rojas
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Imagine que você está no meio de um sonho, nada memorável e inesquecível, um sonho como qualquer outro, que é interrompido por um estrondoso boommm! Então você sente um leve movimento de sua cama, a vibração dos vidros e acha que o barulho do trovão é ouvido, anunciando a chuva pesada. Abre os seus olhos e fica surpreso ao encontrar um sol brilhante, céu azul que se derrama sobre as cortinas e em breve será maior a confusão pelo barulho de passos que são ouvidos, as portas que se abrem e fecham, as vozes no corredor fora do seu apartamento, as rádios que se ligam e ficam em sintonia com a notícia. E então você decide acordar-se em busca de sua mãe ou pai, se possível os dois, melhor ainda.
A próxima coisa que você lembra é que alguém diz que explodiram o DAS! E a frase é repetida em um eco de muitas vozes que estão lotadas em uma sala de grandes janelas no andar superior de um edifício de 13 andares, a partir do qual você pode ver, não tão longe uma fumaça com algum fogo que de vez quando surge.
A seguir a angústia que lembra é a da mãe procurando moedas para orelhão localizado no piso térreo. Então você, aos 8 anos, um 6 de dezembro de 1989, não sabe qual é a DAS, descobre que o que acaba de explodir, é um prédio que está muito perto do trabalho de seu avô materno.
A calma chegará no meio das sirenes dos carros de bombeiros e ambulâncias que vê passar através da janela quando sua mãe consegui saber que o seu avô está bem. E então apenas ficava aguardar a lista de mortes nos jornais e a volta a vida diária, em meio da certeza crescente de que a vida pode acabar num estouro.
Esta situação faz parte de uma memória pessoal e partilhada com os colombianos que vivem ou sobrevivem, durante os anos 80 e 90. E nada longe daquelas de gerações que viveram muito antes e depois, graças a um conflito armado interno não declarado de mais de 50 anos, motivado e agravado por interesses econômicos e políticos que marcaram várias gerações que no meio da morte abrem espaço para a vida.
Para falar nisso começaremos por contar que a Colômbia, está situada no norte da América do Sul. É banhada por dois oceanos, no norte do Atlântico e do Pacífico. Porque se situa na linha do equador, não existem estações do ano e a temperatura é regulada pela altitude: perto dos Andes são áreas de neves eternas, na beira do mar com temperaturas até 40 graus.
Na parte sul do território, a Cordilheira dos Andes se divide em três ramais: permite a geração de vários ecossistemas, alguns únicos, como os páramos, contrastando com o deserto diante das montanhas geladas aparecem as planícies cálidas do Leste, as exuberante florestas, orlas e ilhas do Caribe ...
Durante o século XX, a economia era sustentada pelos produtos agrícolas, como o tabaco e o café, e recursos minerais como o petróleo, esmeraldas e ouro. No entanto, nos últimos anos devido ao processo de migração causado pela insegurança econômica ou social, as remessas começaram a ocupar a primeira linha da economia. Reconhecido também pela produção e comércio mundial de maconha e cocaína, uma das principais fontes da economia clandestina, a violência óbvia e os processos políticos.
Mas, além dos recursos naturais, temos também muitos grupos armados: incluem as guerrilhas de esquerda, grupos paramilitares, um exército com graves problemas de corrupção interior e agora a criação de sete bases militares norte-americanas.
O ataque com um carro-bomba ao Departamento Administrativo de Segurança DAS, na manhã do 6 de dezembro de 1989 não foi um incidente isolado, mas a expressão do conflito social que então tinha mais de duas décadas e vários atores. Para ir desenrolando a meada e entender um pouco a configuração do conflito não resolvido, começamos com um dos mais antigos atores do conflito: as FARC.
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exercito do Povo, FARC-EP, são o resultado da confluência do processo que alguns historiadores definiram como "a violência política bipartidária" [1] da luta pela terra em um país que nesse momento sustentava a sua economia na agricultura e do processo de ingresso e assimilação do comunismo na América Latina.
"Vários autores localizam a origem das FARC na violência de meados do século e das autodefesas camponesas surgidas ao mesmo tempo nas regiões de influência política e social do Partido Comunista. Com o nome de FARC aparecem em 1966, após o ataque militar sobre o chamado repúblicas independentes. [2]
As repúblicas independentes foram assentamentos camponeses que estavam localizados na zona da Cordilheira Central, Ocidental e para as planícies do leste, foram o resultado da violência bipartidária entre 1949 e 1953, mas continuaram existindo mesmo após o acordo de coligação entre o partido Liberal e Partido Conservador, entre 1958 e 1974. Ambos os partidos tinham acordado a alternância no governo e a coalizão foi chamada de Frente Nacional.
Alguns dos grupos guerrilheiros liberais levaram as idéias do comunismo que estava entrando na América Latina. Após a queda do governo militar do general Gustavo Rojas Pinilla, que levou à formação da Frente Nacional e da desmobilização das forças de guerrilha, os comunistas do sul do Tolima, se recusaram a entregar suas armas. Eles e seu líder, Charronegro Jacobo Prias Alape, sabiam que em breve as necessitariam para se defender dos anticomunistas ao seu redor. " [3]
Alguns setores que se opõem ao governo consideraram que estes assentamentos eram uma ameaça à soberania nacional e assim o expressou o político conservador Álvaro Gomez Hurtado, em seu discurso ao Senado, em 29 de novembro de 1961.
"[...] Neste país há um número de repúblicas independentes, que não reconhecem a soberania do Estado colombiano, onde o Exército colombiano não pode entrar, onde disse que sua presença é abominável, que assusta ao povoado ou moradores [ ...] é a república independente de Sumapaz [...]de Planadas [...]de Rio Chiquito [...] e agora temos o nascimento de uma nova república independente de Vichada, a soberania nacional está encolhendo como um lenço. "
Analisa Henderson: "O discurso de Alvaro Gómez foi oportuoa porque veio dois dias antes de que Fidel Castro subscrevesse abertamente ao marxismo-leninismo, dez dias antes de que a Colômbia quebrasse relações com Cuba e duas semanas antes da audiência de John F. Kennedy ". [4]
As palavras de Álvaro Gómez, provocaram reações no governo até o ponto do planejamento para o próximo ano para uma ação militar contra o pequeno enclave de Planadas. A ação não foi realizada e é desconhecido o motivo pelos que a missão foi interrompida. Mas dois anos depois, em Maio de 1964, foi bombardeado pelo exército sul Marquetalia um enclave ao Sul de Planadas, onde tinha o estabelecimento Charronegro e que comunicava com o enclave de Rio Chiquito.
Os sobreviventes deste ataque formariam um grupo armado que era o principio de autodefesas camponesas: em 1966 viria a ser conhecido como as FARC.
Em uma longo trafegar de mais de 50 anos quando o país foi transformado, este grupo armado permaneceu, passou por alterações qualitativas e quantitativas: aumento do número de homens armados, ligações ao tráfico de drogas, ocupação do terras, o controle político e militar em algumas regiões distantes da capital, mudanças na sua liderança e orientação política, a ocorrência de outros grupos guerrilheiros, três tentativas de acordos de paz, o surgimento de grupos paramilitares, entre outros, no entanto, como em maio 1964, ou aquele dezembro de 1989 ainda é possível que o sonho do colombianos possa ser interrompido com um estouro. Disso a gente vai continuar falando nos próximos artigos de Opinião Sul Jovem
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[1] Isto é conhecido como o tempo violência para o período de confronto armado entre os liberais e conservadores, que veio de 1947 durante 18 anos e deixou um número estimado de 200 pessoas mortas.
[2] Gonzalez, Fernand; Bolivar, Ingrid; Vazquez, Teófilo. Violência política na Colômbia. Da nação fragmentada para a Construção do Estado. CINEP. Colômbia, 2004. Página 53.
[3] Henderson, James D. A modernização na Colômbia: O ano Laureano Gómez, 1889-1965. Universidade de Antioquia , Faculdade de Humanidades e Economia, Universidade Nacional da Colombia-Sede Medellín, Colômbia, 2006. P. 589.
[4] Ibid, p. 588.
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