Olhadinha mexicana.
Maio de 2008, por Oscar Zamora Torres
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15 de marco de 2008
Que difícil é dizer ir embora. Faz pouco mais de um mês comecei a planejar a minha partida e desde esse momento muito tem passado pela minha mente.
As coisas que você deixa no caminho, as palavras que nunca eu disse os acontecimentos que pudessem ter sido e não foram, quem sabe por que razão, ficam cravadas numa parte de mim e hoje as guardarei numa mala com destino a milhares de quilômetros do que nós chamamos lar.
Agora fica um futuro, tão claro quanto imprevisível, tão excitante quanto esquisito, mas sempre com a esperança de procurar essa eterna resposta que faz com que sejamos curiosos em cada passo que damos, pelo simples fato de procurar algo que é maior do que nós.
Fico nervoso, ansioso e comovido. Estes são dias em que as palavras as vezes não são suficientes para exprimir-lhes a todas as pessoas do meu redor o que estou sentindo e como eu os estou vendo agora que a vida é tão diferente.
Agora sinto que somente fico eu, na procura de enfrentar os meus maiores sentimentos, e nessa parte de mim na qual eu me questiono e me ralho todos os dias.
24 de Marco de 2008
Buenos Aires.- Como se esquece um passado maravilhoso?. Como você fala de modernidade quando continua ancorado numa época que segue repetindo costumes e se nega a deixar de lembrar uma e outra vez as historias de um país?
A Argentina parece que tivesse ficado há varias décadas atrás, quando a ditadura mostrava o seu lado mais severo, quando não era estranho que os militares reinaram as ruas de Buenos Aires e fizeram com que aquelas pessoas que pensavam diferente deles ficaram caladas, e quando o único consolo eram as conversas de botecos, os salões de tango, os longos e escandalosos brindes na rua e, obviamente, os berros no estádio de futebol cada domingo: tem que defender a dignidade e o orgulho custe o que custar.
Não acontece nada para as pessoas que insistem em manter essa parte de sua personalidade intacta, em lembrar que aqueles tempos passados que os fizeram rir, chorar, pensar, gritar e amar continuam sendo características que com certeza herdaram as futuras gerações.
Dentro dessa mirada insolente e soberbia que esconde, a Argentina fica triste. Não muda por nada do mundo seu sofrimento, mas em troca te oferece um sorriso amável e ao mesmo tempo sarcástico de aquele que se sente superior a qualquer coisa e circunstância, por não falar de adversidade.
Dizem que na fraqueza está a força, e os argentinos têm por historia, bem apreendida a lição. Porque é difícil que alguém possa ensinar a sermos felizes, eles são felizes pelo fato de defender o seu espaço e essa parte da personalidade que os define.
É por causa disso que a Argentina mostra sua pele e seu sangue, em cada rua de Buenos Aires, em cada pessoa que te cumprimenta e que ao mesmo tempo pergunta o que você está fazendo aqui. Não se calaram nunca, não tem motivo para fazê-lo.
Melhor continuo escutando e indo ao estádio de futebol, a curtir a torcida com os berros.
Maio 2008
Buenos Aires.- O melhor de cada lugar é o fato de sempre ter coisas que contar e em Buenos Aires há coisas para contar. Pelos menos, para alguém que vem de fora, os detalhes são importantes dentro de uma cidade que nunca dorme e que tem um sentimento especial em cada canto.
As historias são intermináveis. Nestes dias que quase não tenho tempo livre por causa dos meus estudos de mestria, não perco a oportunidade de ver na rua os contrastes entre um bairro e outro, entre a historia e a imensa cultura argentina, e também por todo o perdido.
Por enquanto, o México parece longínquo, mas existem coisas que eu lembro irremediavelmente. Os portenhos têm esse traço de meiguice que faz com que você fique tranqüilo, embora este sentimento seja exprimido em forma diferente ao que eu estou acostumado. .
É estranho que as pessoas te identifiquem como o “mexicano” e todas as idéias que ligam à minha nacionalidade. Por exemplo, o Chaves Gómez Bolaños, Maná, Luis Miguel, o mariachi, o tequila –farto de consumi-lo nesta região- o porquê a seleção foi eliminada no passado Mundial de futebol pela ... sei lá, até pelo vocabulário “popular” e outras apreciações que me fazem os portenhos. Parecesse que o México não vá embora de mim e ainda continua presente eu sinta saudades ou não sinta saudades. .
A Argentina é paixão em quase tudo o que diz e faz, embora ainda não seja mais do que um simples sentimento exprimido de forma imponente . O comentário do dia quase sempre é comum: o que faz bem ou errado Cristina Kirchner ( a atual presidenta), o que aconteceu em “Dançando com as estrelas”, o porque o time não ganhou a taça, o porque o time rival é líder do campeonato, a fumaça na cidade Fumaça sobre Buenos Aires , os conflitos com o campo e o porque não temos de comer, quem tem razão, quem não concorda, quem é o culpado, e por aí vai.
Tudo é questionável e todos opinam com a dose de intensidade necessária para cada caso, porque cá todo mundo necessita de inimigos com quem bater boca, embora seja o assunto mais insignificante.
Mas eu vou confessar que eu gosto disso. A cada passo que eu dou pelas ruas de Buenos Aires tento absorver algo, não somente ficar com o que olhei e escutei no dia anterior. Eu estou começando a me questionar pelos mesmos temas e tentando apreender cada vez mais de uma forma de identidade que não quer morrer.
E vou continuar avançando. Com certeza a Argentina terá mais alguma coisa para me dizer e me ensinar. Somente por isso eu ficarei esperto...
Livros:
"El País de las Maravillas. Los argentinos en el fin del milenio", de Mempo Giardinelli. Editorial Planeta. Como são os argentinos e porque são desse jeito.
"Argentinos", de Jorge Lanata. Editorial Vergara. Um livro que se refere à historia argentina e como são os argentinos.
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