Opinion Sur Joven

Nº46

A outra face da infidelidade.

A situação das amantes.

Abril de 2009, por Alejandro Urman, Magalí Sztejn

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Em toda situação de infidelidade, há três pessoas envolvidas: o traído, o traidor e a amante, geradora de discórdia. Especialmente as mulheres que estão nessa posição normalmente sofrem. Algumas sonham com que o homem abandone o lar e fique come elas. Algumas querem esquecer ele, mas não podem: outras ficam à vontade sendo “a outra”. No artigo se analisa a difícil e complexa situação das “amantes”.

““Somente o amor não satisfeito pode ser romântico ” Juan Antonio no filme “Vicky Cristina Barcelona”

“É uma dor esquisita morrer de saudade por algo que você não vai viver jamais”, do livro Seda de Alessandro Baricco

Faz dois anos publicamos um artigo falando da infidelidade, que gerou intensas respostas e consultas dos assinantes. Entre eles chamou muita a atenção que muitas mulheres que escreviam eram amantes e –longe de ficar à vontade com essa situação- a sofriam. Parecia que o problema era que se estavam traindo a elas mesmas. A infidelidade, nesse caso, era especialmente a elas mesmas.

A seguir o caso de uma leitora que fala da realidade de um monte de mulheres:

“Faz um ano sou a amante de um colega de escritório. Pedi demissão faz oito meses. Fiquei apaixonada por ele e acho que ele também ficou apaixonado por mim. Eu sei que não tenho muitas opções. De fato, a semana a passada falei para ele que pensasse o que ia fazer e ele sempre responde: "Vou pensar nisso", "não sei", "não é tão fácil deixar a minha família"… Eu entendo ele. Faço terapia desde seis anos e não contei a minha situação ao psicólogo porque sei o que ele vai me dizer. E além do mais , sei que não posso exigir nada a ele, porque eu aceitei o relacionamento desse jeito. Sempre tem pouco tempo,quando a gente se encontra já quase não tem relações sexuais, acho que nós somos como “amigos com privilégios”. Liga pra mim todos os dias (obviamente que ele dirige todos os tempos, TODOS).

Deveria dar um fora nele? Deveria dizer que pense o que quer? Tornou-se obsessão?

Amantes: delas ninguém fala ?

Ser “a outra” não é algo aceito socialmente; caso contrario ser “o outro” não cria maiores controvérsias. Como é um tema ligado com a moral, às vezes se faz mais difícil de tratar. Enquanto os homens geralmente contam o acontecimento a viva voz, muitas amantes não falam da situação por vergonha, ou somente contam para os mais íntimos. É difícil imaginar a um pai criando a uma filha para que seja uma “boa amante”. Talvez por isso o assunto seja tratado de forma superficial.

Porém, é um assunto que está presente na literatura, no cinema, no teatro e na televisão, embora seja predominante um olhar machista, que deixa fora a posição dessas mulheres e os seus sentimentos mais profundos. Parecesse que o amor e a obsessão vão de mãos dadas. E no caso das amantes se adiciona outro ingrediente: uma quota não menos importante do velho e conhecido masoquismo.

As obsessões se caracterizam por pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes e inapropriadas, que provocam ansiedade ou mal-estar significativo. As frases típicas seriam: “Não posso tirar ele da minha cabeça”, “o único que eu faço e pensar nele”. A diferença de uma pessoa apaixonada “sadia” –aquela que vive pensando no seu parceiro de forma idílica-, nesse caso temos uma tentativa de ignorar ou suprimir esses pensamentos, impulsos ou imagens negativas, ou uma intenção de neutralizá-los fazendo coisas ou tentando se distrair.

O ponto de fratura é quando os pensamentos se tornam excessivos, impedem à pessoa fazer suas atividades diárias e provocam um mal-estar significativo na sua vida cotidiana. Nesse ponto seria bom que a pessoa fosse a um psicólogo.

Sofro, depois existo

Embora o masoquismo seja entendido como o prazer pelo sofrimento físico, também se atribuí esse termo as pessoas que têm satisfação no sofrimento e na decadência. Em alguns casos, segundo a visão psicanalítica, está ligado a um sentimento inconsciente de culpa.

Psicólogos da linha cognitiva observam patrões disfuncionais na forma de se relacionar com o outro; nesse caso a pessoa amada. Parecesse que as masoquistas reafirmariam sua existência diante dos outros sofrendo. As amantes, por exemplo, mantém durante meses ou anos relacionamentos que as fazem sofrer; e, embora, elas dizem seguir nessa situação “parae nfrentar a situação ”.

Mais do que um sintoma teriamos que falar de um jeito de viver a vida: sofrendo. Dessa forma elas parecessem ratificar sua existência fazendo da dor um culto de vida.

Amantes “que pensam como homens”

Nem todos são casos de amantes “sofredoras” e cativas pelo desejo de um amor impossível. Existe outro tipo de mulher amante a que não se incomoda em ser a terceira em discórdia. Ela o único que deseja é curtir um bom momento. A Micaela conta: “Faz um ano que estou envolvida num relacionamento com um homem já comprometido, muitas vezes no momento da intimidade vejo que ele tem o anel de casado no dedo e eu nem sequer me incomoda. Até talvez, seja engraçado”. A Micaela não quer que o seu Romeu deixe a sua esposa nem aos filhos, simplesmente quer curtir um bom momento.

A capacidade de dissociar o amor do sexo é muito compatível com o jeito de pensar e agir de muitos homens. Talvez esses tipos de amantes sejam as mais procuradas pelo sexo masculino. É uma atitude que também responde ao que tem acontecido nas ultimas décadas: o amor e a intimidade deixam de ser concebidos como instâncias divididas por pessoas numa relação comprometida, para se tornar em encontros ou ligações fugazes.

Como fala Ralph Waldo Emerson, citado no Livro O amor liquido de Zygmunt Bauman, “Quando a pessoa patina sobre gelo fino, a salvação é a velocidade. Quando a qualidade não oferece sustentamento, geralmente procuramos remédio na quantidade. Se o “compromisso não tem sentido” e os relacionamentos já não são confiáveis e dificilmente tem duração, as pessoas escolhem mudar de parceiro”. Segundo Baumam essa é a nova forma de se relacionar do século XXI.

“Eu nunca faria”

Este é o tipo de mulher que nunca estaria envolvida com alguém comprometido ou casado. Não aceita ser a segunda.

Enquanto a realidade cotidiana de muitas mulheres é ser amantes, também há outras que não concordam com essa forma de relacionamento. Ser amante significa – para muitas mulheres- se colocar imediatamente num segundo plano, ser a outra.

A idéia que percebem é que embora existam casos nos que o homem escolha abandonar a sua namorada/noiva/esposa, normalmente não acontece isso. Portanto, elas preferem conhecer a outro homem que sim possa oferecer um relacionamento de um a um. A Marcela, de 28 anos opina: “Sempre é pior a tristeza por esse relacionamento incompleto do que a ilusão que pode gerar estar procurando ”, embora reconheça que, as vezes é difícil deixar algo que, pelo menos, envolve uma presencia, um contato, um estar permanente do outro. “Mas, a mulher esquece quanto ela vale e se subestima diante de outros homens que possa ter ao seu redor”, conclui.

Nem tudo é cor de rosa

As amantes, normalmente, vivem historias de paixão fugazes, de uma forma que os poetas românticos do século XIX muitas vezes invejariam. De todos modos, o que a literatura e o cinema de Hollywood muitas vezes confundem é que o amor é muito mais do que a paixão. Nos filmes se conta a forma em que duas pessoas se conhecem romanticamente em Paris ou numa cena com forte chuva se beijam e abraçam. O que omitem esses relatos é o fato de sobrelevar os momentos difíceis: Como solucionam os conflitos do dia a dia? Como poupam para comprar uma casa? Como educam aos filhos? Como é o relacionamento com a família dele ou dela?. “O amor não encontra seu sentido na ânsia de coisas já feitas completas e terminadas, mas no impulso a participar na construção dessas coisas ”, explica Baumann.

Às amantes de corações quebrados teríamos que dizer, infelizmente, que o amor muitas vezes não é o que sentem, que não é somente uma paixão abrasadora que parece torná-las loucas. O amor é algo cotidiano, menos arrasador, algo que se constroe todos os dias. Amantes: é a hora de que sejam sinceras com o que vocês pretendem da vida, do amor e de um relacionamento a dois em vez de culpar a um homem que construiu o amor em outro local. Desenho: Bárbara Dana

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