Março de 2007, por Pablo Winokur
"O assunto não esta indo direitinho". Nós não estamos como os nossos avós pensavam que íamos a estar. Não estamos como nós pensamos que merecemos estar. Não estamos como gostaríamos de estar, e isso faz que fiquemos frustrados, fracos.
Onde esta a origem de nosso fracasso? Acho que grande parte dos problemas da região tem a ver com que estamos altamente diagnosticados: muitos falam, mas poucas pessoas fazem. E cada diagnostico tem um inimigo, que depois, algum dia, vai procurar revanche. .
Existe um problema. O efeito Maradona/Perón. Existe alguma coisa em comum entre estas duas personagens? Seja pelo futebol ou pela política os dois se consagraram como “o maior” na sua especialidade.
As historias são semelhantes: líderes carismáticos, habilidosos e com um desenlace no que ambos não souberam dirigir o seu próprio poder... ou não quiseram.
Mas, o mais importante ainda é o legado que eles deixaram. A conseqüência do ato de um líder não só tem efeitos imediatos, mas também que o seu exemplo tem uma tendência a ser replicado por os seus seguidores.
Cada personagem, que chegou até onde eles estiveram ( ou a algum lugar semelhante), somente agiu por repetição, de modo tal de poder se tornar ele mesmo no Maradona ou Perón (segundo o caso). Em cada mundial aparecem jogadores argentinos indo pela Esquerda e correndo sozinhos, como o famoso gol do Diego aos ingleses, eles não passam a bola e não jogam em equipe porque desejam ser tão bom jogador quanto ele.
Cada novo presidente eleito, começa pela Esquerda (ou direita) e vai sozinho; tem uma negação a passar a bola e jogar em equipe. Ele quer ser como o Perón, lotar praças, ficar 16 anos, ou 20 ou 30 no governo
Mas o poder é passageiro, a vida muda, o mundo é outro, e eles ficam sozinhos; quase tão sozinhos quanto o pais, que deve voltar a começar depois da catástrofe que muitos deles deixaram. Jogadores que fazem o jogo individual, que não passam a bola, que gostam de ser protagonistas do jogo, ou pelo menos escolher eles cada jogada. Faz umas semanas, um juiz começou a pesquisar judicialmente uma serie de medidas do ultimo governo do Perón. Quando a noticia foi conhecida, a cidade de Buenos Aires toda amanheceu com cartazes que diziam “ Não se metam com Peron” [1]
“Quando dizem não se metam com Peron estão dizendo mais outra coisa: não se metam com o pensamento, o mais importante não se metam com a metodologia. Não é a ideologia, porque o peronismo não tem uma ideologia senão varias. É a metodologia o que não pode ser tocada: a ideologia vertical, a metodologia autoritária, que enfatiza o papel da condução”.
Qual é a nossa direção? Existem varias respostas que a historia ofereceu a esse pergunta. A resposta mais comum – e a síntese do que está a seguir - é "não se sabe”. Outro tipo de resposta poderia ser “na direção que nos diga o líder”. Uma terceira resposta poderia ser onde digam “as pessoas”, que é o mesmo que dizer “a parte nenhuma”
Muitas vezes não existem projetos, outras vezes existe, mas depende integramente de um líder, uma única pessoa que é mortal, teimosa, hesitante, orgulhosa, que muda o tempo todo. Se nós dependemos da pessoa do líder, e a pessoa sofre uma mudança de animo, inevitavelmente muda o projeto.
E se o líder, além disso, somente responde a vontade das "pessoas", e o líder comete gafes, as pessoas deixam de oferecer o seu apoio, apóiam a outra pessoa, e o projeto cai. Em democracia é essencial a comunicação entre o povo e os dirigentes, que tem de ouvir o que as pessoas querem. Mas isso deve realizar-se através de um projeto político e não da personalidade do líder. Um projeto que necessariamente deve ter vários referentes.
A Argentina historicamente –conforme o legado do Maradona e Perón- teve uma tendência a procurar a referencia de lideres. Mas, que acontece nos outros paises? Vamos ver três exemplos disso:
Na Venezuela tem um presidente com um projeto e uma oposição com um projeto radicalmente diferente. Um exclui ao outro. O presidente Chavez tem um suposto projeto de inclusão das classes populares, mas que exclui a todos os que não pensam como ele [2]; a oposição tem um projeto que historicamente afastou as classes populares e como não atinge a maioria dos votos deve utilizar outro tipo de medidas para lutar contra o Chávez quem é considerado um ditador. Quais são essas medidas? Em 2002 realizaram um golpe de Estado, isto é uma pratica que retrasa entre 20 e30 anos. Depois, em 2005, tomaram a decisão de não se apresentar nas eleições por considerá-las fraudulentas. Conclusão: permitiu-se que o Chaves tivesse unanimidade no Congresso, com o que pode fazer o que quiser, inclusive reformar a Constituição para ficar perpetuamente no poder. Eu não estou tentando nestas linhas torcer por um ou outro. Mas sim, eu fico com interesse de criticar a falta de vontade de ambas partes de se sentar na mesma mesa.
Embora, na América Latina também tem experiências positivas onde os diálogos políticos estão gerando uma maior estabilidade em mediano prazo.
No Uruguai o governo está formado por uma coalizão e centro esquerda, encabeçado pelo presidente Tabaré Vázquez. O problema político nesse lugar é que algumas linhas da coalizão pedem uma mudança mais à esquerda, enquanto o presidente tenta algumas políticas como uma aproximação maior aos Estados Unidos. O interessante é que a organização interna do partido oficial, o Frente Amplo (FA), para ou promove estes avanços de uma maneira mais democrática e coletiva. O FA é uma coalizão política formada por 19 partidos nacionais e outros tantos distritais. As decisões tanto programáticas quanto estratégicas de dito espaço se tomam através de instituições fortemente consolidadas como o Plenário Nacional, a Mesa Política Nacional e muitas delegações de base, que estão distribuídas em cada canto do território uruguaio. Não se trata de um espaço no que a decisão as toma o Presidente sozinho, senão que este tem a obrigação de negociar com o partido e eventualmente aceitar as ordens. .
Também está o caso do Chile, onde como no Uruguai governa uma coalizão - a Concertación- cujos principais partidos são o Partido Socialista, e a Democracia Cristã. Mas os partidos se mantêm internamente, como forças separadas, blocos parlamentares separados e linhas programáticas separadas, que depois chegam a um acordo em cada nova eleição. A Concertación já teve quatro presidentes democráticos: dois deles da democracia cristã e dois do socialismo. Trata-se de um projeto conjunto em longo prazo. Talvez uma eleição para que outros países possam aprender.
Dialogar é pensar diferente, mas também é concordar. Eu li que para que duas pessoas possam discutir elas tem que concordar basicamente em tudo: caso contrario não existe discussão possível.
Na Argentina, igual que na maioria dos paises da América Latina, sempre se priorizaram as diferenças por sobre os acordos: a eliminação do outro – intelectual ou fisicamente – foi uma constante desde a construção dos estados nacionais.
Hoje se abre um novo panorama. Em muitos paises começa-se a concordar em premissas fundamentais: a democracia, o crescimento com equidade e distribuição, o combate à fome, a educação de qualidade como forma de nutrir os princípios anteriores.
Agora a maioria está concordando. Porem, para que esses acordos fiquem projetados ao futuro, estes devem ser plasmados por diferentes atores políticos e sociais em um ou vários projetos abrangentes que transcendam o governo do momento.
Para isso são necessárias duas coisas:
1) Dentro de um projeto político é necessário assentar as bases claras, discuti-las internamente e chegar a estatutos. Depois com isso tem se que gerar varias lideranças (inclusive podem ser temáticos) ou referentes, de modo de que se um dos lideres cair, não se termine o projeto. As pessoas são efêmeras. Os partidos políticos não.
2) Dentro das diferenças (por exemplo, entre dois projetos políticos diferentes) também se pode concordar. Eu acho que sobre esses acordos poder avançar para fazer políticas de Estado. Na Argentina, temas como a última reforma educativa -Lei Nacional de Educação- ou a reforma ao sistema de aposentadorias que fizeram diferentes partidos políticos vai levar a que concordem, embora seja com matizes.
Tomara, que a Argentina e os outros paises da América Latina possamos apreender a jogar em equipe. Provavelmente, a única forma possível em que nossos paises e seu povo possam ir para frente.
+Informação
Um livro: "Mañana es San Perón" de Mariano Plotkin.
Um filme: La vida por Perón
Faça contato com Pablo Winokur, autor deste artigo.
[1] N.T: * "não vai ferrar com o Perón não” expressão de sentido muito mais forte escrita no original.
[2] Eu digo “suposto” porque na Venezuela 33,9% da população continua sendo pobre a começos de 2006. Chávez recebe o Governo em , com 49% de pobres. Embora se possa observar uma melhoria nos indices, em 2003 -ao promediar o governo- a pobreza teve um topo de 54%. Fonte: Instituto Nacional de Estatisticas de Venezuela.
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