Opinion Sur Joven

Nº46

A brecha digital geracional .

Abril de 2009, por Pablo Winokur

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Em só 15 anos o mundo tem vivido uma revolução. Com a criação da Internet já nada se faz como era costume fazê-lo: escrever, informar-se, ler, comunicar-se, trabalhar, estudar, procurar dados enciclopédicos.... tudo mudou e muda rápido demais. E essas transformações vão deixando pessoas fora: aqueles que não têm dinheiro para ter acesso as tecnologias e as pessoas idosas que nasceram no mundo em que a Internet não existia. Neste artigo a gente vai analisar este fenômeno.

Não gosto de cair em frases já feitas, mas tenho que fazê-lo. Estamos vivendo uma das revoluções mais importantes que o mundo viveu. Não é uma revolução ideológica, nem a abolição da escravidão, a emancipação burguesa ou o final da luta de classes. Somos parte de uma revolução digital, promovida pela melhora continua da tecnologia, internet e o surgimento de outros inventos complementares. Já quase nada é feito como faz 20 anos. Mudou a forma de escrever (quem escreve a mão?) , o conteúdo da escritura, de ler, de se informar, de se comunicar a distância (o telefone fixo cada vez se usa menos), de se comunicar com que você esta bem perto (é muito comum que empregados de um mesmo escritório batam papo no computador em lugar de se aproximar a conversar), a forma de trabalhar, de estudar, de procurar informação, de pensar, de procurar relacionamentos sentimentais/sexuais, de adquirir pornografia e até de relações sexuais. Respirar comer e ir ao banheiro parecem ser as atividades que se salvaram até o hoje.

O problema é que se o mundo mudou tanto a partir da aparição dessas tecnologias, todos aqueles que não conseguiram se adaptar a elas ficam fora do mundo. Darwinismo social, bem primário.

Chama-se brecha digital a separação que existe entre aqueles que dominam as novas tecnologias da informação e aqueles que não o fazem. Normalmente o conceito se utiliza para diferenciar aos paises ricos dos pobres. Enquanto que os primeiros podem fazer uso exaustivos das TICs (Tics), os setores mais pobres e marginados dos países em desenvolvimento carecem de todo tipo de contato com as tecnologias. Inclusive em setores urbanos como as favelas da Argentina, os pobres tem acesso as Tics em locutórios. Mas logicamente o nível de aprendizagem na utilização das ferramentas não tem a mesma abrangência que naquelas pessoas que ficam o tempo todo no lar um computador disponível.

Essa é a brecha digital. Os jovens dos países ricos poderão se conectar ao mundo através do seu computador e conseguir mais e melhores trabalhos, aos dos paises pobres, não. Porém, existe outra brecha digital que também é muito preocupante. A brecha digital geracional. As pessoas em idade ativa que tem entre 45 , 65 ou 75 anos tem uma relação díspar com a tecnologia. E isso gera um divorcio e um problema na comunicação com os mais jovens. Isso é o que gostaríamos de tratar neste artigo.

É um pouco crono céntrico dizer que estamos vivendo uma revolução única? É possível. Seria difícil garantir que não se viveram situações semelhantes no mundo. Cada vez que apareceu uma tecnologia disruptiva, mudou o curso da historia. Um exemplo é a imprensa. Conseguiu democratizar a informação de uma forma impensada até esse momento. Eis, que a universalização do alfabeto foi possível graças a ela.

O descobrimento da maquina de vapor, usada para indústrias têxteis, foi o começo da primeira revolução industrial e a base da tecnologia que permitiu criar os trens. Dessa forma começava um processo que terminaria com a tração a sangue no transporte. No entanto, isso não mudou a vida particular das pessoas, até muitos anos depois com o invento do automóvel.

A máquina de escrever, antecessora direta dos processadores de texto, não conseguiu se espalhar profundamente fora dos escritórios. O seu uso não se fez tão extensivo como o Word, em parte porque os seus benefícios não eram tão grandes: era uma vantagem para o leitor, que não tinha que identificar a letra manuscrita de ninguém, mas não para o escritor, que não podia alterar o seu escrito, nem gravá-lo e continuar no outro dia.

A televisão foi outro invento que mudou a historia do século XX. Mas ao contrario do que acontecia com a maquina de escrever, somente se utilizou na vida pessoal sem interferir em outros âmbitos. Sem dúvidas foi uma revolução em matéria de entretenimento e modificou certos hábitos familiares. Mas não mudou vários aspetos de nossa vida.

Maior foi o uso do telefone, que entrou tanto na vida pessoal quanto no trabalho. Mudou a forma de fazer negócios e de falar com um amigo que mora a mais de cinco quarteirões, sem ter que visitá-lo. Mas a diferença do computador, não necessitou de grandes conhecimentos para poder ser usado. Qualquer um podia pegar o telefone e ligar sem maiores problemas. O faz isso menos importante? Não, mas, o telefone não excluía pessoas no uso por não saber como utilizá-lo. O computador sim.

Comunicação e incomunicação

Existe um problema entre significados e significantes. Essa imagem que olhamos na direita da tela do computador para mim significa, “minimizar, maximizar e fechar”. Para meus pais é uma linha, um quadrado e uma cruz (jogo da velha a três?). Os mesmos ícones não representam a mesma coisa para alguém de 20 anos do que para alguém de 60 anos.

O Mouse é para mim uma extensão de minha mão. Acho que eu tenho passado um terço dos últimos 10 anos de minha vida com a mão no pequeno aparelho. Para Norberto continua sendo algo muito difícil de usar. Com o seu polegar e índice pega o aparelho e coloca-o na posição certa para dar o clique. Depois, solta ele e com o seu dedo índice mexe no botão esquerdo e aperta sem sustentar o resto do Mouse. Isso significa não somente que demora o duplo de tempo no uso e também não consegui clicar no lugar certo. Tentei explicar-lhe como se usa como se usa de maneira correta, mas não deu certo, até hoje.

O Miguel é diretor executivo de uma importante ONG de Buenos Aires. Tem 60 anos e não consegui se comunicar por e-mail, isso traz muitos problemas com os jovens que trabalham na organização. Não é que ele não saiba usar a ferramenta. Sabe mandar e-mails mas não consegui incorporar o seu uso como meio de comunicação. Os jovens mandam pedidos, relatórios etc e ele não conseguiu registrá-los em parte porque somente olha os mails uma vez por semana. Talvez, dias depois liga perguntando que aconteceu que não mandaram o relatório (ele o quer em papel). Apesar de estar próximo à aposentadoria as autoridades da ONG decidiram demiti-lo. Não foi somente pelo seu desenvolvimento com a tecnologia mas com certeza ele foi mais um fator que influiu.

Hoaxes

Nos começos do radio Orson Wells adaptou a novela “A Guerra dos Mundos” a um radio teatro. O locutor começou a relatar que nesse mesmo momento estava acontecendo na Terra uma invasão extraterrestre e a descrição era tão realista que fiz com que muitas pessoas se compenetraram na historia. Contam os relatos da época que ao inicio do ciclo, avisaram que era uma ficção, mas nem todos os ouvintes ouviram essa advertência. Ao ligar os rádios, eles pensaram que realmente acontecia uma invasão extraterrestre. Num ataque de pânico, aconteceram muitos suicídios em Nova Jersey.

“A guerra dos mundos” e os suicídios, deram lugar a um monte de pesquisas no que se refere aos efeitos que a mídia produzem nos ouvintes (depois televidentes). Nesse momento foi desenvolvida a chamada “ teoría da agulha hipodérmica”, que postulava que as mensagens que a mídia injetava nos receitores, chegavam diretamente aos cérebros produzindo alterações substanciais na sua forma de pensar.

Essas teorias sobre a mídia reinaram até mediados dos anos 60 , quando começaram a fazer experimentos para refutá-las. Dessa forma se criou a chamada “ teoria dos efeitos limitados” que dizia que na realidade a mídia somente agia sobre os cérebros das pessoas mas com alguns limites. Isto é, somente podem construir sobre as conceições previas dos indivíduos.

Dito seja de passagem, hoje se questiona que os suicídios tenham sido tal (talvez tenham sido um par mas na historia se magnificou com o tempo). E também se questiona que o efeito da mídia seja tão linear como se pensava.

O problema, eu acho, é que quando aparece uma nova tecnologia comunicacional. –a imprensa, o radio, a TV... se gera na mente das pessoas a idéia de que estes instrumentos dizem verdades. Na medida em que as industrias vão avançando e os indivíduos tomam contato com a tecnologia, vão apreendendo que não necessariamente toda mensagem que se transmite por aquele meio é verdade.

Faz umas semanas eu recebi um e-mail de uma família. Basicamente dizia que tinha que mandar um e-mail a cada senador e reclama—lhes pela sua falta de honestidade. “¡Que trabalhem para o bem comum, retribuindo pelo salário que a gente lhe paga !”, concluía o e-mail e depois dava uma lista completa de todos os senadores, incluindo o seu endereço de mail e telefone. O problema é que a lista era dos senadores do ano 2001.

Dias depois eu recebi outro e-mail em que se transcrevia uma carta aberta de Joan Manuel Serrat a favor do Estado de Israel e com duras críticas para o mundo árabe. Chamou-me a atenção que o cantor tomasse partido tão abertamente e comecei a procurar a suposta carta aberta em Google. Na maioria dos blogs, fóruns, a referenciavam como a carta de Serrat. Entretanto, procurando mais um pouco- e em sites mais confiáveis- encontrei que na realidade a autora tinha sido Ajinoam Nini, uma cantora israelense que “dividiu atuações com os melhores cantores. Em espanhol, entre outros com J.M.Serrat”

Crise de liderança.

Chamam-se nativos digitais a aqueles que nasceram num mundo em que já existia a Internet. Migrantes digitais são aqueles que viveram num mundo sem esta ferramenta e hoje tem que se adaptar a nova realidade. Isso é um problema para aqueles que se acostumaram a viver num mundo radicalmente diferente a este. Mas também é um problema para nós, os jovens nativos (ou no meu caso “anfíbio”, porque estou no meio) porque não temos alguém que indique um caminho certo de como continua evoluindo o assunto.

Para os jovens (nativos ou anfíbios) significa um desafio. O ter que percorrer necessariamente alguns caminhos sem a ajuda de um guia de alguém que já viveu as experiências que nós queremos desenvolver. O mundo progrediu graças a que os jovens de outras épocas puderam apreender de aqueles que vieram antes para conhecer que caminhos não deviam voltar a percorrer. Mas este mundo mudou tanto nos últimos quinze anos que parece difícil incorporar muitas experiências previas de aqueles que estiveram antes que nós. Por exemplo, eu sou jornalista e é difícil me inspirar em aquelas pessoas que desenvolveram um jornal, uma revista ou um programa de TV ou de radio pelo simples fato que todos esses meios hoje estão sob suspeita e tem sérios riscos de desaparecer. Isso faz com que seja complexo procurar referentes na minha área profissional, algo semelhante acontece com outras áreas profissionais ou sociais.

Mas como significa um desafio para os jovens ao mesmo tempo é um desafio para os idosos. Embora seja difícil, embora tenham uma vida arrumada com outros esquemas, devem tentar apreender como funciona este mundo em que a Internet e as Tics são chaves pra todo o funcionamento da sociedade.

E também é um desafio para governos, Ongs, fundações, centros culturais: atingir reduzir a brecha digital. Tanto a que se produz como conseqüência da pobreza quanto pela diferença de idades. Conseguir desenvolver métodos para reduzir essas brechas deveria ser um objetivo importante de aqueles que planejam como objetivo criar um mundo mais igualitário. Não somente no que se refere a possibilidades sociais, mas também permitindo que aqueles que nasceram em outromundo possam se integrar a este novo mundoesquisito e convulsionado.

Desenho: Bárbara Dana

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