Fevereiro de 2008, por Pablo Winokur
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O assunto era decidir aonde ir. Tínhamos carro, barraca e liberdade, portanto podíamos escolher no momento. As opções eram dois: San Pedro ou Gualeguaychu. Melhor San Pedro, que não há cheiro desagradável, nem rios poluídos nem protestos em cada quarteirão. Essa era a imagem que tínhamos de Gualeguaychú. Mas quem gosta disso nas férias?.
Gualeguaychú é um povo pequeno a duas horas e meia de Buenos Aires, a capital argentina. Ele possui uma população de 76.220 habitantes, segundo o recenseamento de 2001. O departamento inteiro tem 7.086 km2. O povo/cidade é atravessado por dois rios: o Gualeguaychú e o Uruguai, que é compartilhado com o país homônimo. Este último rio é o grande orgulho dos moradores de Gualeguaychu .
Faz uns quantos anos o país vizinho - decidiu autorizar a instalação de uma das fabricas que produzem a pasta de celulose que depois permite fazer o papel. O problema é que esta fabrica – que demonstrou ser muito poluente em outros lugares do mundo – eliminará os dejetos através do belo Rio Uruguai.
Desde que conheceram a instalação das fabricas de celulose (no começo iam a ser dois mais uma delas foi deslocada) os habitantes desta localidade começaram a se mobilizar para defender o seu rio.
Primeiro foram com protestos simples e depois- no ano 2004- começaram a fazer bloqueios de estrada. A idéia foi interromper a passagem de veículos na ponte que liga a cidade com a vizinha uruguaia, Fray Bentos. O assunto rapidamente chamou a atenção da imprensa nacional argentina e os próprios uruguaios. Os ambientalistas de Gualeguaychú pediam a deslocamento das fabricas com o objetivo de evitar que poluíssem o rio. Algo conseguiram: uma das fabricas –ENCE, espanhola- decidiu se mudar; a outra, Botnia (de Finlândia), ficou.
Passaram três anos desses bloqueios. Os moradores de Gualeguaychu continuaram considerando-o um problema ambiental. Mas do outro lado do rio não pensavam a mesma coisa: os uruguaios vêm isso como um problema nacional. Faz um ano viajei a esse país e, como costumo fazer, comecei a falar com as pessoas: eles em geral não percebiam o assunto ambiental, mas como uma invasão argentina a soberania de um país que por características geográficas parece sitiado pelos gigantes do norte e o oeste.
Recentemente, na Cúpula Ibero-americana de Presidentes, Tabaré Vázquez disse que o seu país estava igual que a Cuba. “Coincido totalmente com as palavras do presidente da Argentina em que o caminho é o dialogo e não existe outro, mas concordo também com as palavras do vice-presidente de Cuba, que os bloqueios são absolutamente ilegais, e um golpe muito forte na economia. ”, [1].
Um dado importante e que explica em parte este sentimento dos uruguaios. O PIB (Produto interno Bruto) argentino projetado para 2008, segundo os dados do Fundo Monetário Internacional é de 621,1 bilhões de dólares (PPA), o qual o colocaria –apesar da crise- entre as 20 economias mais importantes do mundo. Entretanto o Uruguai aparece no posto 91 desse mesmo ranking [2]
Nessa situação, o que deveria ser um problema ambiental, ou um debate entre desenvolvimento versus meio ambiente, terminou sendo um assunto de piqueteros versus nacionalismo uruguaio.
Chegamos a Gualeguaychú e começamos a percorrê-lo. Ficamos surpreendidos pelo tamanho do lugar. Aqui algumas das surpresas. Acampamos na beira de um rio, que atravessava a cidade. Achávamos que íamos a dormir na margem do rio Uruguai, com Botnia enfrente e um assambleista por trás, mas na realidade não foi assim.
O que atravessa a cidade é o Rio Gualeguaychu e é muito pequeno. Perguntamos pelo Uruguai, mas eles dizem que isso fica longe, que a beira está privatizada. Não o mencionam como”o grande orgulho” mas como um lugar longínquo.
O povo não é um povo como achávamos eu e o resto dos portenhos de nariz arrebitado que viajavam comigo. Era uma cidade bem desenvolvida. O rio Uruguai está afastado 13 quilômetros do centro.
Percorrendo a cidade percebemos que tudo dizia: Não as fabricas de celulose”. Camisetas, nas ruas, cartazes das lojas e inclusive as grandes cadeias ou franquias mudaram os seus cartazes incluindo essa frase. Na noite fomos a uma festa, e os músicos também lembraram o ditado. A consciência dessa cidade é maravilhosa, não somente pela causa que defendem, mas também fundamentalmente pelo que significa ver um povo lutando junto pelo bem da totalidade dos cidadãos. E com isso eu não estou defendendo os métodos, estou simplesmente elogiando uma filosofia de vida.
No segundo dia fomos ao rio Uruguai, que nem sequer sabíamos que estaria aberto, os moradores do lugar não eram otimistas respeito a disso. Muitos diziam que a beira limiar com o rio Uruguai somente se abria em temporada alta, a partir de dezembro aproximadamente. Subimos ao carro e começamos a percorrer os 13 quilômetros, parte deles em caminhos de terra.
Chegamos a um lugar que se parecia com um parque nacional, mas que - por um pequeno detalhe- não era um parque nacional: ele estava privatizado. Descemos à praia... nosso maior desejo era ver a Botnia e não levamos em conta que estávamos na margem de um rio maravilhoso. Na esquerda via-se uma chaminé, pequena, tão pequena que nem sequer tínhamos a certeza de que a fabrica de celulose fosse essa ou outra construção pequena perto dela. Não fizemos nenhuma pergunta por que sabíamos que ela não ia ser bem recebida.
O zoom das câmeras da televisão engana. Parece que está bem pertinho, que a paisagem muda, que já nada vai ser o que foi. Muitas vezes a mídia cria imagens que depois não concordam com a realidade. Não se trata de mentir, mas de exagerar. Na margem do Rio Uruguai, que está a 13 quilômetros da cidade, una pequena construção é enxergada ao longe. Não é a única: há outras paisagens ao longe que modificam a vista natural. Nos dias que nós estivemos lá,a Botnia não emitiu gases de nenhum tipo.
No que se refere ao cheiro- outra preocupação importante entre dos ambientalistas – também não percebemos nada. Na realidade a cidade de Gualeguaychú está a quase 30 quilômetros da Botnia e seria muito difícil que o cheiro que possa emitir a fabrica chegue até a cidade. Muito difícil, mas não impossível.
Porém, o assunto da suposta poluição visual talvez seja o mais interessante para analisar. A distancia entre a Botnia e a margem do rio do lado argentino é importante. Dele somente se olha uma construção ao longe. Muito facilmente, pela distancia que existe, ela poderia se ocultar com uma cortina de arvores, e isso eliminaria o efeito “visual”. Foi proposto varias vezes, mas não se concretizou. Mais ainda: uma atitude desse tipo poderia ser vista como um ato de boa vontade por parte do Uruguai. Mas por alguma razão não se concretiza. Por um lado se expõe um argumento quase sem sentido, do outro não se toma nenhuma medida para resolvê-lo. A polemica se aprofunda. É ou não é poluição visual instalar uma fabrica frente a uma paisagem natural? E se os dois tivessem razão? É muito difícil encontrar uma solução intermédia? Tal vez o conflito não seja de conteúdo, mas de relação.
Nos começos do mês de novembro, no meio da Cúpula Ibero-americana de Presidentes, Uruguai habilitou o funcionamento da Botnia com o conseqüente mal-estar argentino.
Nos primeiros dias surgiu cheiro a couve flor e inclusive operários da fábrica se intoxicaram. Mas além de incidentes parciais, a verdade é que até o momento não se demonstrou à poluição da fabrica. Isso significa que nunca acontecerá poluição? Claramente não. Estes são processos de longos anos, e no momento em que percebemos se poluem ou não já vai ser tarde demais e o dano irreversível.
O Estatuto do Rio Uruguai, assinado entre ambos os países em 1973, declara que se um dos paises quer fazer um empreendimento dessas características, que possa prejudicar a água em comum, deve fazê-lo com a autorização do outro, isso não se realizou em forma correta.
Mas hoje a Botnia é uma realidade. Está, existe e os uruguaios não estão dispostos a ceder nesse ponto, porque eles acham -a meu critério erroneamente- que é abdicar em parte a sua soberania.
A solução a este conflito está no dialogo e em não continuar levando os extremos a polemica. O casso da poluição visual é mais do que eloqüente: ambos planejam posições extremas, mas nenhuma resolução a um assunto que é muito fácil de resolver. Somente os ânimos se alteram com discussões nacionalistas sem sentido, somente resta revisar o assunto nos foros da Internet ou em You Tube. Oferecemos alguns links referentes a isso.
O único caminho é o dialogo entre os povos e um compromisso que permita cuidar o meio ambiente – neste caso o Rio Uruguai- - sem armadilhas nem golpes baixos.
Um forum: Bate-bocas que não solucionam nada e somente exacerbam nacionalismos. Ruim! Clique aqui
Mais outro bate-boca ruim : Dois caras -uruguaios e argentinos- falam através de You Tube. Pomos um link de um, mas é interessante seguir a discussão inteira.
Site da Assembléia de Gualeguaychu
Um filme: Erin Brockovich: Mãe solteira e desempregada, Erin Brokovich (Julia Roberts) consegue trabalho como assistente em um escritório de advocacia, onde se envolverá no caso de uma empresa que poluiu uma região e causou doenças nos moradores de uma pequena cidade.Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento
[1] Fonte: Jornal Perfil 9/11/07
[2] Isso é baseado no producto interno bruto (PIB) a valores de paridade de poder adquisitivo (PPA). Dados fornecidos pelo Fundo Monetário Internacional. Entretanto, temos que esclarecer que embora a Argentina possa ser considerada como um dos primeiros 20 países se olharmos o PIB (PPA), outros dados o mostram na mesma posição do que o Uruguai ou pior. Ambos possuem uma pobreza de aproximadamente 26% da população; o Uruguai está muito melhor do que a Argentina no que se refere ao Coeficiente Gini (índice que mede a desigualdade); também existe paridade no índice de Desenvolvimento Humano elaborado pelas Nações Unidas. Mais info simples clique
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