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Revista Mensual y Gratuita
Nº87, Novembro 2010

Geopolítica

Mediação, ecologia e geopolítica

Kenneth Cloke

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As catástrofes ambientais estão aumentando em frequência, alcance e custo, gerando conflitos em todo o mundo. Sem mediação, a negociação e a implementação de soluções para estes problemas, a assistência para recuperação e a prevenção sistemática serão adiadas por anos, senão décadas. Os mediadores podem ajudar a desenhar processos e diálogos geopolíticos melhorados que permitirão prover ajuda mais efetiva aos que mais precisam.

“A História humana se parece mais e mais com uma competição entre a educação e a catástrofe.”

H.G. Wells

O recente vazamento de óleo da British Petroleum no Golfo do México ressalta um crescente conjunto de dificuldades em nossas respostas às catástrofes ambientais, com ecos que ressoam e reverberam com as experiências das respostas dadas ao Furacão Katrina, em Nova Orleans, aos terremotos no Haiti e no Peru, às tempestades de fogo na Rússia, às enchentes no Paquistão, ao tsunami, na Indonésia, entre outros.

Como a população, a tecnologia e a globalização continuam a aumentar, aumentará também a deterioração ambiental, incluindo o aquecimento global, permitindo que possamos antecipar, com razoabilidade, e talvez mesmo prever, os seguintes resultados:

1. Os desastres ambientais se tornarão mais espalhados, severos, impactantes, custosos e comuns;

2. Os conflitos serão engatilhados por estes eventos, e aumentarão conforme indivíduos, grupos, nações e ecossistemas sejam impactados;

3. Estes conflitos se concentrarão onde haja falhas locais, nacionais e globais nos sistemas de respostas a emergências mundiais;

4. A habilidade para resolver estes conflitos rápida e efetivamente terá impacto direto de acordo com o grau de dano por eles criado;

5. A mediação, negociação colaborativa e metodologias aliadas de resolução de conflitos serão cada vez mais usadas para discutir e resolver disputas de forma que resultam em desastres ambientais.

Com o aumento da população humana e os avanços tecnológicos, nós naturalmente temos tido um impacto ecológico maior sobre o planeta. Simplesmente por não prestar atenção, por séculos, e por procurar maximizar nossas vantagens competitivas individuais de curto prazo enquanto nações, corporações e comunidades isoladamente, nós desperdiçamos recursos não renováveis, saqueamos e profanamos nosso ambiente, e criamos as pré-condições para a extinção em massa e a catástrofe mundial.

Como consequência, não é mais possível buscar abordagens não sustentáveis à sobrevivência, particularmente as que agravam os problemas que já estamos enfrentando. Em vez disso, estes problemas demandam não somente a atenção coletiva de cada um, mas modos de comunicação que sejam respeitosos, colaborativos e democráticos; modos de resolução de conflitos que sejam complexos, criativos e paradoxais; e métodos de resolução de conflitos baseados em interesses sobre como abordá-los. Sem essas mudanças, é provável que muitas pessoas em todo o planeta não sobrevivam.

- O que precisa de conserto
- Os problemas mais sérios que enfrentamos hoje incluem:
- O tamanho e a densidade das populações humanas;
- Emissões de CO2 e metano que aumentam o aquecimento global;
- Extinção de espécies;
- Perda de biodiversidade;
- Perda das florestas tropicais e da flora;
- Desertificação, erosão e perda de terras aráveis;
- Diminuição da diversidade genética em produtos agrícolas;
- Perda de água potável;
- Depleção no estoque de peixes;
- Resistência aos antibióticos;
- Polução; perda de bio-degradabilidade e uso de produtos químicos tóxicos;
- Vulnerabilidade às pandemias;
- Aumento no custo da assistência médica;
- Interrupção dos padrões climáticos;
- Aumento da severidade das catástrofes naturais e nas condições climáticas;
- Efeito global de decisões ambientais locais, relativamente menores.

Em acréscimo a estes, estamos enfrentando problemas de alcance mundial em outras áreas que podem facilmente fazer disparar consequências ambientais severas, aumentar conflitos e tornar mais difícil para nós solucionarmos estes problemas, incluindo:

- O maior poder destrutivo e a disponibilidade de tecnologia militar;
- Proliferação nuclear;
- Tendência a usar a guerra e apelar para a violência;
- Intencionalmente atingir civis quando em uma guerra;
- Terrorismo e ciclos infindáveis de vingança e retaliação;
- Aceitação do uso da tortura e da crueldade como resposta;
- Crises financeiras globais;
- Cortes orçamentários em serviços governamentais, especialmente em - educação, regulação das corporações e em ciência e tecnologia;
- Transações econômicas sem regulação;
- Aumento da pobreza, da desigualdade social e inequidade econômica;
- Instabilidade em razão de autocracia política e ditadura;
- Aumento do preconceito e da intolerância;
- Hostilidade a imigrantes, refugiados, minorias e estrangeiros;
- Políticas genocidas e “limpeza étnica”;
- Aumento do tráfico de drogas, do tráfico sexual e do crime organizado.

Para resolver qualquer destes problemas, e outros que inevitavelmente confrontaremos enquanto estivermos nos proliferando, desenvolvendo e expandindo, as nossas diferentes etnias, religiões, culturas, sociedades, organizações e instituições precisam aprender a trabalhar juntas. Para fazer isso, precisamos de maneiras melhores de nos comunicarmos uns com os outros, expandir habilidades em diálogos abertos e honestos, e de melhores técnicas para solucionar problemas, negociar coletivamente, e resolver disputas sem guerras, correção, e outros métodos adversos.

Isto pode soar simplista, e até idealista. Claramente, nossa história quanto a trabalhar juntos para solucionar urgentes problemas sociais, econômicos, políticos e ecológicos oferece poucas razões para termos confiança. Em vez disso, ela revela um registro impressionante de desastres, misérias sem sentido e mortes desnecessárias que poderiam ter sido evitados. Por séculos, nos safamos com assassinatos, mas não mais temos recursos a desperdiçar.

E o que é pior, esta escalada de problemas não pode ser resolvida completamente ou a tempo pelas nações-estado, ou mesmo por grandes grupos de países, ou por uso de métodos militares, burocráticos e autocráticos. De fato, nenhum dos seguintes mecanismos de resolução de problemas, já centenários, por si sós, conseguirá resolver estes problemas:

- Força militar;
- Tratados e acordos internacionais;
- Intervenções legais e domínio da lei;
- Normas administrativas e regulações ou políticas e procedimentos;
- Negociações diplomáticas baseadas em poder;
- Líderes e instituições políticas nacionais;
- Princípios capitalistas e de mercado;
- As Nações Unidas, da forma como estão constituídas no presente.

Então, o que resta? A resposta é: nós. Pode soar ridículo, quando se trata de solucionar problemas globais, os mediadores importam. A boa notícia é que, embora nossos problemas tenham se multiplicado, multiplicaram-se também nossa capacidade social e tecnológica de resolvê-los. Temos não somente aumentando enormemente nosso entendimento e nossa habilidade em comunicação, facilitação, solução criativa de problemas, diálogo público, negociação colaborativa, redução do preconceito e alerta aos vieses, mediação, desenho de sistemas de resolução de conflitos e métodos similares. E é precisamente destas capacidades de que precisamos agora para “salvar o planeta”.

Se considerarmos o derramamento de óleo da BP no golfo, havia inúmeros problemas que levaram ao desastre ambiental ou contribuíram para fazê-lo pior. Na minha opinião, estão incluídos:

- Dependência de combustíveis fósseis;
- Poderosas companhias de petróleo e de gás com bens e renda maiores que produtos internos brutos de vários países;
- Mecanismos de mercado inadequados para suprimir o desejo por lucros rápidos, criando um incentivo para economizar em custos, incluindo segurança;
- Agências de regulação que são lideradas, administradas e alvos de lobby por pessoas que prestam mais atenção à influência corporativa do que à segurança do público e à sustentabilidade ambiental;
- Disputas quanto à administração das plataformas marítimas, que foram resolvidas de forma hierárquica, burocrática e autocrática, deixando os que tinham experiência direta no problema sem poder ou autoridade para resolvê-lo;
- Concentrar a autoridade para resolução do problema nas mãos dos que estavam mais preocupados com os lucros da empresa do que com a segurança ou os danos ambientais.

No derramamento da BP, bem como no anterior, da Exxon Valdez, houve um esforço concertado nos círculos político e midiático para encontrar alguém a quem culpar pelo que aconteceu. Porém, um efeito secundário de culpar indivíduos é que o sistema que permitiu ou encorajou o erro é ignorado ou fica em suspenso, aumentando a possibilidade de haver novos problemas no futuro.

Catástrofes ambientais estão aumentando em frequência, alcance e custo, gerando conflitos ao redor do mundo, incluindo discussões sobre as causas, responsabilidades e competição por escassos recursos de ajuda. Sem mediação, a negociação e a implementação de soluções a esses problemas, a assistência com a recuperação e a prevenção sistêmica poderão ser adiados por anos, senão por décadas.

No desastre da BP e em outros similares, os líderes políticos contaram com o uso da diplomacia clássica, ou seja, em negociações adversas, distributiva e baseada em poder, em que há estrita separação entre:

1. Declarações públicas e pronunciamentos em que todas as coisas certas são ditas, mas ninguém se engaja em diálogos, ou genuinamente se envolve com o que os outros estão dizendo, ou realmente foca em encontrar soluções para os problemas, juntamente com...

2. ...Duras negociações tradicionalmente acordadas nos bastidores, com quedas de braço, agendas ocultas e estilo combativo, em que as partes maiores, mais poderosas e ricas “ganham”, enquanto que outras são excluídas, privadas de poder e desrespeitadas.

Claramente, os mediadores podem desenhar melhores processos para alcançar acordos. Por exemplo, nós poderíamos:

1. Conduzir avaliações colaborativas de fundo dos processos usados em resposta aos desastres ambientais anteriores para identificar o que funcionou e que o não funcionou;

2. Consultar amplamente organizações e indivíduos diversos com experiência em desenhar sistemas de resolução de disputas de modo a melhorar o processo de ajuda;

3. Pedir às Nações Unidas para auxiliar na criação de protocolos internacionais de ajuda que incluam mediação, diálogo e métodos similares;

4. Enviar facilitadores de negociação e mediadores para se encontrarem previamente com as demais organizações de ajuda para ajudar a estabelecer alvos e cronogramas e encorajar compromissos que possam levar a acordos melhores e mais rápidos;

5. Incluir, dentre os tomadores de decisão e solucionadores de problemas, os representantes daqueles que tenham sido prejudicados pelos eventos, juntamente aos mediadores e facilitadores que possam auxiliar a reconciliar as diferenças que aparecerem;

6. Designar mediadores das Nações Unidas para coordenar a colaboração entre os grupos em competição;

7. Chegar a acordos com uma variedade de passos futuros que possam ser tomados caso o consenso não seja alcançado, incluindo diálogo aberto, resolução informal de problemas, negociação colaborativa e mediação;

8. Selecionar coordenadores regionais de ajuda e times de alívio de desastres com experts que representem variadas nações, grupos e blocos, com facilitadores profissionais e recorders para ajuda-los em seu trabalho;

9. Considerar o processo inteiro como um sistema de conflito e desenhar maneiras melhores de responder a ele;

10. Focar esforços não apenas no melhoramento mas também na prevenção de forma a reduzir a severidade dos problemas futuros.

Esta lista não tem a intenção de ser exaustiva, mas simplesmente sugerir que é possível que mediadores, facilitadores e designers de sistemas de resolução de conflito encontrarem sugestões úteis que possam fazer o processo mais efetivos e colaborativos.

Se as ideias nesta lista estiverem corretas, é nossa responsabilidade contribuir com o que pudermos para reduzir o sofrimento por meio da construção da capacidade das organizações internacionais para reduzir conflitos que reduzem o envio de ajuda ou que falham no envio aos lugares que mais precisam. As dificuldades, os problemas e as razões da não intervenção são muitos, mas a necessidade persiste. O que falta é nossa compreensão de que podemos de fato fazer a diferença e nossa vontade de começar.

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