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Revista Mensual y Gratuita
Nº82, Junho 2010

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Europa: ajustar para transformar

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Os países europeus atravessam uma fenomenal crise sistêmica. Muitos atores foram tomados de surpresa, outros advertiram sobre o que viria e adotaram muitas diferentes atitudes: houve os que procuraram alertar sobre o furacão que avançava enquanto outros se lançaram a lucrar desaforadamente para aproveitar os enormes espaços de especulação que se iam abrindo.

De fato, há muito por desentranhar e compreender com respeito à gênese desta crise. Pode-se ficar analisando o impacto que os déficits fiscais e o superendividamento público e privado provocam, problemas bem graves e evidentes. Não obstante, não há dúvida de que não surgiram do nada. Tem havido processos muito profundos, e fatores determinantes desses processos, que conduziram aos déficits e o estendido superendividamento. O desafio e a resposta europeia não pode ser, então, somente conter a hemorragia dos desequilíbrios fiscais e financeiros, mas sim, ao mesmo tempo, atuar para remover as causas; agora, sobre o calor, no transcurso da crise, antes que o magma se cristalize (basta observar a experiência do colossal resgate praticado nos Estados Unidos que postergou críticas mudanças para “quando passar o furacão” e, como resultado disso, hoje lhes cabe encarar a tremenda resistência dos mesmos atores que, no começo da crise, rogavam por auxílio em troca de conceder o que fosse necessário para poder sobreviver).

Se os países europeus em maior dificuldade e a União Europeia em seu conjunto produzissem o draconiano ajuste que estão começando a aplicar para tão somente retornar ao que eram antes desta crise, poderiam provocar um duplo desastre.

(i) Em seu apuro por fechar os fluxos negativos, está o risco (quase certeza) de escolher o caminho de menor resistência, castigando uma vez mais aos mais vulneráveis, aos que menos podem defender-se; a contra-face é que aqueles que conduziram o processo e os que lucraram com a decisão durante o período que antecedeu à crise lograrão transferir boa parte – senão a totalidade – de sua cota de responsabilidade aos demais. Serão abertos imensos espaços para uma fulminante especulação e haverá uma imensa transferência de ativos e renda aos especuladores cujos capitais não são afetados pelo ajuste e se vêem com mãos livres e vítimas fáceis para proceder. O resultado será um enorme retrocesso sistêmico com uma maior aceleração do processo de concentração econômica e de desigualdade social.

(ii) Ao mesmo tempo, ao não se focalizar em transformar as causas profundas (estruturais e de funcionamento) que conduziram à crise, os países europeus deixariam sem transformar a dinâmica econômica e social subjacente, o que fará que se reproduzam, cedo ou tarde, condições similares às que produziram a implosão que se quer controlar. Isto fala da futilidade de “resgates” que aparecem para conter efeitos em lugar de remover causas.

Digamo-lo com toda clareza: não existe um só tipo de ajuste, mas vários, e cada um diferente dos outros. Se o tipo de ajuste escolhido não implicasse desde o começo uma profunda transformação do rumo e da forma de funcionar da União Europeia e dos países que a conformam, o doloroso custo que haverão de pagar castigará desproporcionalmente os setores médio e baixo da pirâmide social e do aparato produtivo. Enquanto isso, vultosos capitais não regulados lucrarão livremente à custa dos demais. Não faltam ideias nem melhores estratégias; elas existem, e os próprios europeus são os chamados a selecionar aquelas que melhor lhes sirvam, mas a natureza da crise, a experiência de outras regiões e a dor de nossos povos clamam para que as soluções que de fato se adotem sejam desde o início portadoras de transformação.

Opinión Sur tem oferecido sua perspectiva sobre a gênese da crise global e as possíveis estratégias de saída em numerosos artigos e livros La tormenta del siglo De Juan Eugenio Corradi e Ajustar el rumbo ; também o fazemos no presente número e procuraremos continuar nos próximos meses.

Cordiais saudações,

Os Editores

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