Revista Mensual y Gratuita
Nº101, enero 2012
Mais perigosas que os paraísos fiscais são as pátrias financeiras.
O mundo que hoje acaba é um mundo insustentável e, ademais, injusto. O mundo que se prepara para substitui-lo é um mundo incerto. A Europa é hoje um terreno desta transição entre uma globalização disfuncional e outra alternativa.
Há vários meses, a Europa se move à beira do abismo, e em seu deslocamento propaga o temor do contágio e de uma nova recessão em nível global. Como resultado de uma gestão tardia, lenta e ineficaz da crise financeira global que se iniciou já faz cinco anos, a Europa se encontra hoje imersa em uma profunda crise de dívida soberana, que mostrou seus primeiros dentes na Grécia, que se expandiu rapidamente pela Irlanda, Portugal e Espanha, e que hoje adquire dimensões insustentáveis ao ter ligado os alarmes na Itália, a terceira economia europeia.
A comunidade global vem sendo confrontada com o problema de que para atingir o objetivo acordado de erradicar a pobreza irá requerer muito mais progresso econômico. Mas o progresso econômico do passado é a causa da maior parte das emissões de gases do efeito estufa responsáveis pela mudança climática. Vencer a pobreza sem ameaçar o planeta irá requerer a adoção de tecnologias radicalmente diferentes para a economia global.
O empréstimo governamental é um traço característico da economia mundial desde a fundação dos estados nacionais, e também a pedra fundamental do processo de desenvolvimento. Contudo, as crises da dívida de países em desenvolvimento são também um fenômeno crescente. Inevitavelmente, a cada crise financeira uma ou mais nações se encontra restruturando ou dando o calote em seus compromissos de dívidas soberanas. Enquanto uma parte importante do ferramental da mitigação da crise em países em desenvolvimento, a restruturação da dívida soberana pode ser considerada ilegal sob vários tratados de comércio e de investimento, especialmente os negociados com os Estados Unidos.
Quando se escreve um livro chamado Age of Greed , como eu fiz, a chacota com o título começa de imediato. Como essa se diferencia das outras? A cobiça é uma profunda característica humana; ela não desaparece e reaparece de repente. Até um de meus mais sábios editores questionou a ideia de que a cobiça de agora é diferente do que jamais foi.
Na última assembleia do Fundo Monetário Nacional, pretendeu-se impor que a crise econômica tivesse chegado ao seu fim. Essa afirmação começou a se desmontar.
A expressão “os mercados” se refere à enorme massa de capital financeiro que hoje domina a economia global e é composta de uma miríade de investidores agindo sozinhos ou combinados em gigantes fundos de administração com poderosas figuras sob seu domínio. “Os mercados” são móveis, rápidos e cruéis. Eles julgam políticas públicas; ultrapassam em tamanho e número os recursos das agências multilaterais; evitam regulações; frequentemente debochando tanto da tecnocracia e da democracia; fazem ou quebram Estados inteiros. Em suma, eles governam o mundo, mas, desafortunadamente, não podem governar a si mesmos. No passado, espalharam o terror em países emergentes. Hoje, focam nos avançados. O globo parece um trem em alta velocidade com um motorista louco na direção.
Os paraísos fiscais têm chamado muita atenção da mídia ultimamente. Na Inglaterra, o movimento UK Uncut organizou passeatas por todo o país contra a evasão fiscal cometida por grandes empresas e ricos indivíduos – ligando os lucros retidos no exterior com os déficits e cortes orçamentários em casa.
Em meio a uma catástrofe de magnitude inimaginável, com enormes tragédias humanitárias, o governo deve se preocupar com acalmar os mercados financeiros que, de outra forma, punirão uma sociedade que está lutando bravamente para sobreviver.
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