Revista Mensual y Gratuita
Nº101, enero 2012
Os países do Hemisfério Sul não geramos a crise contemporânea, nem estamos enfrentando seus mais destrutivos efeitos, mas devemos nos proteger de suas chicotadas, que podem afetar a trajetória de desenvolvimento. Vários governos procuram adotar medidas que reforcem linhas de defesa sem sacrificar o rumo em direção a um crescimento orgânico com inclusão social e produtiva. Os desafios não são menores e toda a política é, certamente, aperfeiçoável; impõe-se proteger o mais cedo possível e com toda a efetividade do caso aqueles flancos que possam ficar mais expostos.
Na atual conjuntura global, “ajuste” e “transformação” representam muito distintas opções socioeconômicas. O “ajuste” aplicado pelos países europeus centra-se na restauração da dinâmica do pré-crise a partir do abatimento de seu enorme déficit fiscal e alto nível de endividamento. De sua parte, o resto dos países enfrenta profundos processos de mudança; uns, copiando a forma como funcionam os países afluentes; outros, procurando transformar a dinâmica geradora da concentração econômica contemporânea. Espaço conhecido o do “ajuste”; trajetórias diversas e em processo de construção, as da transformação.
Diante de uma crise, é um erro crasso utilizar o emprego como variável de ajuste. Isto por razões éticas, econômicas, sociais e políticas. Não obstante, em um enorme segmento de empresas e organizações públicas de quase todo o mundo, a primeira, e não a última, resposta tem sido cortar empregos. Existem outras formas mais efetivas e menos destrutivas de enfrentar uma crise e ajustar o rumo para um desenvolvimento sustentável.
A desigualdade, resultado direto do acelerado processo de concentração econômica, está na base da crise que hoje fustiga os países afluentes. Seu impacto transcende o ético, o injusto e se projeta como um grave fator de instabilidade sistêmica. É certo, a desigualdade e a concentração atenazam nosso futuro, ainda que não seja o único necessário a transformar.
Digamo-lo de cara: o mundo arde, mas não só pela grande crise global que golpeia os países afluentes e ameaça projetar-se daí par o resto do planeta, mas também pelas outras crises surgidas da mesma matriz causal ainda que de mais longa data associadas a uma rampante desigualdade, ao doloroso atraso de comunidades despossuídas de voz, de saúde, de alimentação, de refúgio, de segurança, a existência de centenas de milhões de vítimas da injustiça, da avareza, dos fundamentalismos, ao agravo infligido à própria intimidade e significação.
A água ocupa três quartas partes da superfície da Terra e os pobres representam uma porcentagem mais ou menos parecida da população que a habita. (Esclareço que não considero pobres somente os indigentes, mas todos os que não conseguem alcançar os níveis mínimos de “desenvolvimento humano” definidos pelas Nações Unidas). Talvez seja essa a causa última de uma tendência bastante chamativa: quase sempre, os discursos sobre a pobreza apelam a metáforas relacionadas com a água. Partindo da constatação elementar de que a pobreza constitui uma forma aguda da falta de liquidez até a própria circunstância de que faz mais de um século que um armador de barcos convertido em lúcido crítico social, o inglês Charles Booth, foi quem primeiro falou de uma “linha de pobreza”, extrapolando a partir da linha de flutuação dos navios que construía.
O vertiginoso processo global de concentração de ativos e de renda, com seu correlato de crescente desigualdade social, é um dos principais fatores responsáveis da instabilidade sistêmica, afetando a segurança global e o desenvolvimento sustentável dos países. As situações se tornam inviáveis e terminam explodindo quando as medidas adotadas para encarar os problemas que a concentração gera, em lugar de resolvê-los, são inefetivas ou os agravam. Dói comprovar a futilidade dos esforços e as transformações que se poderiam realizar com tamanho financiamento.
Há quem defenda que um crescimento sustentado é a melhor estratégia para assegurar o bem-estar geral e abater a desigualdade e a pobreza. Essa afirmação, repetida com insistência, esconde meias-verdades e outras críticas questões: ocorre que é às vezes certa e, muitas vezes, não, dependendo do tipo de crescimento que se pratique.
Como a população de baixa renda pode aproveitar oportunidades econômicas sustentáveis? Como integrar os que estão excluídos e desocupados em atividades promissoras? Como promover atores social e ambientalmente responsáveis na base da pirâmide? Os empreendimentos inclusivos oferecem algumas respostas a estas interrogações e sua implementação se consegue utilizando diversas engenharias de negócios, entre as quais se destacam as franquias populares.
Os desajustes econômicos que ocorrem em vários países europeus são, uma vez mais, encarados com fórmulas que procuram “acalmar” os mercados financeiros. Trata-se de colocar ordem nas contas públicas e reduzir o superendividamento. Não obstante, o resultado é ajustes desiguais e recessivos. Este é o único tipo de “saída” possível ou existem outras opções melhores?
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Temos reunido em dois e-books boa parte de nossos artigos sobre a crise. Estes são A tempestade do século: a crise econômica e suas consequências por Juan Eugenio Corradi e Crise Internacional: ajustar o rumo e melhorar o funcionamento sistêmico por Roberto Sansón Mizrahi